Companheiras e companheiros, ao longo das próximas semanas faremos uma série de publicações com textos originalmente publicados em conjunto pela Editora Maria da Fonte com o título “Trotsky e o Trotskismo” no final dos anos 30. Trata-se da luta no Movimento Comunista Internacional contra o trotskysmo em geral, e no Partido Bolchevique em particular. Os textos e documentos são em sua maioria do grande Lênin e do Camarada Stalin.
Faremos as publicações com cerca de dois à três textos por vez, como um periódico, e em nossa primeira publicação, também postaremos nota importante presente na primeira edição francesa de 1937.
Trotsky e o trotskismo
Os velhos militantes marxistas russos conhecem Trotsky e é inútil falar-lhes dele… Mas a jovem geração operária não o conhece e é necessário falar-lhe dele…
É preciso que a jovem geração saiba com quem tem de se haver quando certas pessoas erguem pretensões inacreditáveis…
Lênin
As preocupações que nos incitaram a publicar este compilado de textos e documentos são as mesmas que ditavam a Lênin linhas que acabamos de ler no frontispício.1
Fomos, por outro lado, encorajados a fazê-lo pelos numerosos e insistentes pedidos que nos chegaram de leitores pertencentes às mais diversas tendências do movimento operário.
Antes de mais precisemos que, se se trata de uma escolha, não há nesta nada de arbitrário. Tomamos simplesmente os problemas essenciais que, desde há mais de trinta anos tem dividido leninismo e trotskismo e demos, a propósito de cada um, os extratos mais característicos. Poderíamos dar o dobro destes, todos tão humilhantes para Trotsky para a sua doutrina e para a sua ação.
Da leitura abundante das obras de Lênin, Stalin, Trotsky etc., que nos foi necessário voltar a fazer, ressaltou, à medida que avançavamos no nosso trabalho uma conclusão incontestável. No decurso dos quarenta anos da sua vida política, o acordo e a colaboração de Trotsky com Lenin e o Partido Bolchevique foram apenas excepcionais e acidentais, a regra foi, pelo contrário, a sua oposição ao leninismo. A Revolução de Outubro arrastou no seu turbilhão muitos elementos incertos, a que emprestou um pouco da sua glória e da sua auréola, e que a deixaram quando o seu fluxo passou e as primeiras dificuldades da construção do mundo novo surgiam. Trotsky foi o mais típico destes “companheiros de viagem”, chegados tarde e saído cedo. (grifo nosso)
Quarenta anos de atividade política, dez anos apenas (1917-1927) no Partido Bolchevique, e dois terços desta década ocupados em lutas fracionistas incessantes contra a maioria do Comitê Central do PC da URSS. Estes números são sugestivos.
Não se pode atribuir a Trotsky uma falta de constância. Na realidade, há nele uma persistência singular no erro, que sempre o afastou do marxismo consequente, e depois do movimento operário revolucionário. (grifo nosso)
Segue-se, lendo estes extratos, o caminho que ele percorreu e que o conduziu do menchevismo à contrarrevolução, à colaboração mais desavergonhada com o fascismo mais declarado. Portanto, as vias de Lênin e de Trotsky não apareciam como paralelas, mas como incessantemente e cada vez mais divergentes.
Depois de tudo isto, o que é que resta das “pretensões inacreditáveis”, de que Lênin já falava, de Trotsky e dos seus adeptos, pequenas seitas de conspiradores contrarrevolucionários sem apoio nas massas operárias? De que valem as etiquetas demagógicas, mentirosas e enganadoras com que se disfarçam para passar de contrabando a sua mercadoria putrefata: “bolchevique-leninista”, “partido comunista internacionalista”, “partido operário internacionalista?” Queriam cobrir-se com a bandeira de Lênin para trair o leninismo, como outrora outros se reclamaram de Marx para rever o marxismo.
Esperamos que este rápido trabalho ajude o esclarecer esta questão das relações do trotskismo com o marxismo-leninismo. Ele constitui apenas uma primeira e modesta tentativa, e continua por escrever uma obra mais completa.
Tal como está, pensamos que vai ter alguma utilidade, pois é necessário que todos os trabalhadores, todos os militantes do comunismo e da Frente Popular “saibam com quem têm de se haver”.
1937
SOBRE A CONCEPÇÃO DO PARTIDO DO PROLETARIADO
A discussão dos estatutos do Partido no II congresso do POSDR (Londres, 1903)
A atividade política de Trotsky remonta aos últimos anos do século passado. Mas apenas em 1902 teve encontro pessoal com Lenin, em Londres. Este último tentou utilizar Trotsky, como o fazia com todos os jovens militantes, no interesse do movimento revolucionário. Foi assim que o fez colaborar durante algum tempo no Iskra, Órgão Central do Partido, então sob a direção de um comitê de redação que compreendia, além de Lenin, Plekhanov, Axelrod, Potressov e Vera Zasulitch.
Quando, no II Congresso do POSDR (Londres, 1903), rebentaram as primeiras divergências profundas entre os sociais-democratas revolucionários bolcheviques e os oportunistas mencheviques sobre a questão dos estatutos do Partido, que deviam no fundo definir a verdadeira natureza do Partido do proletariado, Trotsky enfileirou no campo dos oportunistas de direita.
Enquanto Lenin propunha um projeto de programa do Partido que punha à frente, fato único na II Internacional, a palavra de ordem da ditadura do proletariado, Trotsky pronunciou-se contra Lenin e defendeu tese segundo a qual a ditadura do proletariado só era possível no dia em que a classe operária e o Partido “se tivessem tornado quase, idênticos”, em que o proletariado constituísse a maioria da população e os socialistas pudessem conquistar pacificamente a maioria parlamentar.
Os estatutos propostos por Lenin tinham por objetivo criar um Partido de novo tipo, homogêneo e combativo. Para ser nele admitido, não bastava, de forma alguma, aceitar o seu programa e pagar as quotas, mas, e sobretudo, militar na prática numa das organizações de base. Foi contra este último ponto, que fechava a porta do Partido aos elementos hesitantes, pouco firmes, que se levantaram todos os oportunistas, entre os quais, Trotsky. Na passagem a seguir, Lenin refuta certos argumentos de Trotsky, mostra a sua debilidade e o seu carácter anti-marxista. Trotsky tinha declarado nomeadamente: “Não sabia que era possível combater o oportunismo por meio de estatutos… Não atribuo aos estatutos uma importância mística!”
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Os Estatutos e o Oportunismo
Entre estas considerações destinadas a justificar a fórmula de Martov2 é preciso destacar a frase em que Trotsky declara que o oportunismo tem causas muito mais complexas (ou muito mais profundas) do que este ou aquele ponto dos estatutos, que deriva da diferença de desenvolvimento da democracia burguesa e do proletariado. Não se trata de saber se os pontos dos estatutos podem criar o oportunismo, trata-se de forjar, com estes pontos, uma arma mais ou menos eficaz contra o oportunismo. Quanto mais profundas forem as causas do oportunismo, tanto mais cortante deve ser esta arma.
É por isso que justificar pelas causas profundas do oportunismo a fórmula que lhe abre a porta, é simplesmente pôr-se do lado dos “seguidistas”. Quando Trotsky estava contra Liber3, compreendia que os estatutos são como a “desconfiança organizada” da vanguarda contra a retaguarda; mas quando se viu do lado de Liber, esqueceu as suas declarações e pôs- se a justificar por “razões complexas”, pelo nível de desenvolvimento do proletariado, o fato desta desconfiança estar entre nós fracamente organizada.
Eis ainda outro argumento de Trotsky: É muito mais fácil para os Jovens intelectuais organizados de uma ou de outra forma inscreverem-se nas listas do Partido.
De fato, e é justamente por isso, que esta fórmula, em virtude da qual elementos não organizados se declaram membros do Partido, está impregnada de amorfismo intelectualista, contrariamente à minha que recusa a esses elementos o direito de “se inscrever nas listas do Partido”.
Trotsky diz que se o CC “não reconhece” as organizações dos oportunistas, é apenas devido ao carácter das pessoas, mas que sendo estas pessoas conhecidas como individualidades políticas, deixam de ser perigosas e podem ser eliminadas pelo boicote do Partido. Isto não é verdade senão para os casos em que é preciso eliminar do Partido (e ainda neste caso é apenas meia verdade, porque um partido organizado elimina por um voto e não pelo boicote). Mas isso é completamente falso para os casos muito mais frequentes em que seria estúpido eliminar e é necessário apenas controlar. Em certas condições, o CC pode incluir intencionalmente no Partido uma organização não completamente segura, mas capaz de trabalhar, para experimentá-la, para tentar dirigi-la no bom caminho, para paralisar os seus desvios parciais, etc. Uma tal admissão não é perigosa, desde que não se permita as organizações “inscreverem-se” elas próprias “nas listas do Partido”. Muitas vezes, será mesmo útil para o esclarecimento de pontos de vista errados ou de uma tática falsa.
Mas se as normas jurídicas devem corresponder às relações reais, a fórmula de Lenin deve ser rejeitada, declara mais à frente Trotsky. Aí também, ele fala como oportunista. As relações reais não são imutáveis; vivem e desenvolvem-se. As normas jurídicas podem corresponder ao desenvolvimento progressivo destas relações, mas podem também (se forem más) corresponder a uma regressão ou a uma paragem no desenvolvimento. Este último caso é o de Martov.
Maio de 1904
V. I. Lenin: “Um passo em frente, dois passos atrás”
Obras completas. tomo VI, pp. 216-217, ed. r.
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Notas de rodapé:
- Bureau d’Éditions, Paris, 1937. As Éditions Norman Béthune (76, Boulevard Saint-Michel, Paris 6*) publicaram, em 1971, uma edição fac-similada desta 1.ª edição francesa. ↩︎
- Os estatutos de Martov (Menchevique), que apenas pediam aos aderentes o reconhecimento do programa do Partido, o seu apoio financeiro, abriam a porta do Partido a todos os elementos instáveis, não proletários, propensos ao oportunismo (nota da edição francesa). ↩︎
- (1880-1937): Um dos dirigentes da organização nacionalista judaica Bund No II Congresso do POSDR (1903) encabeçou a delegação do Bund, manteve uma posição anti-iskrista de extrema-direita; depois do Congresso tornou-se Menchevique (descrição presente em marxists.org). ↩︎