Dumdum: uma voz de resistência – Bastião do legítimo hip-hop

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Nota inicial: Reproduzimos tributo solene feito pela Unidade Vermelha – Liga da Juventude Revolucionária.

Tributo solene

Cantei realidade, fui julgado agressivo”

[…]

Dumdum, inimigo número 1 do Estado”

[…]

Cê tá ligado, pesado é minhas palavras

É só abrir a janela e a guerra estampada

Tipo quadro de terror, romance de Agatha Christie,

Não aceito calado e parto pro revide

O ódio impulsiona a mente, é RAP violento

Facção central, versos sangrentos”

Dumdum

Estamos Vivos, 2020

No dia 12 de maio de 2023 faleceu aos 54 anos, em decorrência de complicações de saúde causadas por um AVC, um dos maiores rappers da história de nosso país, Washington Roberto Santana – mais conhecido pelo seu nome artístico Dumdum, fundador e membro do lendário grupo de RAP nacional Facção Central, que de forma tão contundente e belicosa denunciou por décadas a guerra civil contrarrevolucionária brasileira em suas letras e conclamou as massas de nosso país a uma luta revolucionária, desmascarando claramente a farsa da velha e falsa democracia como um engodo voltado para perfumar o “Auschwitz brasileiro” ou “o espetáculo do circo dos horrores”, como ele e Eduardo Taddeo de forma tão precisa definiram em suas letras.

Em sua homenagem, nós, da Unidade Vermelha – Liga da Juventude Revolucionária, prestamos este singelo, mas honesto tributo solene, ainda que atrasado, reconhecendo o importante papel que o Dumdum e o Facção Central tiveram na denúncia do velho Estado podre e genocida brasileiro e na conclamação ao povo brasileiro – principalmente à juventude proletária e semiproletária – a se levantar de forma revolucionária contra a dominação de nosso país pelas classes dominantes e reconhecendo a necessidade da derrubada completa e violenta do sistema político vigente.

Capa do álbum a marcha fúnebre prossegue

Dumdum se manteve até seus últimos dias de vida fiel a seus princípios de defender a justeza da rebelião violenta das massas contra seus opressores e se opor ao individualismo, ao genocídio, ao racismo e ao mascaramento do regime político vigente no Brasil como uma república democrática. Hoje em dia, certamente Dumdum faz muita falta na cena cultural nacional: temos visto que uma grande parcela dos rappers brasileiros renegaram por completo seu papel de levar adiante o verdeiro espírito do hip-hop surgido como uma cultura de resistência nos guetos norte-americanos e depois espalhada pelo resto do mundo, tendo muitos deles aberto mão destes princípios para promover o individualismo mais mesquinho, a ostentação, a mercantilização dos corpos das mulheres como meros objetos sexuais, o culto à ostentação. Ou seja, subverteram o verdadeiro motivo pelo qual surgiu o hip-hop, como uma ferramenta cultural de resistência ao racismo, ao capitalismo, ao genocídio e ao imperialismo, principalmente ianque. Não é atoa que, quando do falecimento do Dumdum, pouquíssimos foram os rappers e funkeiros do “mainstream” que prestaram a ele qualquer homenagem, a grande maioria ignorou por completo que havia tombado um dos maiores artistas da cultura hip-hop que o Brasil já conheceu. Dumdum nenhuma vez sequer glorificou o consumo de drogas em suas letras, sempre tratando a dependência química tão disseminada entre nosso povo como uma arma de dominação dos opressores para nos manter inconscientes e sermos alvos fáceis de abate para a polícia. Sempre denunciou a ideologia individualista e lutou, através de suas letras, para elevar a consciência de nosso povo para que não caísse nas armadilhas ideológicas dos exploradores burgueses como o fez na música “Aparthaid No Dilúvio de Sangue” (2006):

Seu rio da ganância deságua num mar de pólvora”

[…]

Na crendice popular o diabo tem chifre e cauda

Cheira enxofre tem tridente, usa capa

Na real anda de Bentley blindado com urânio

Sai na lista dos bilionários da Forbes no fim do ano

Senta no sofá, liga o home-theater da sala

Pra ver criança mutilada em 60 polegadas”

[…]

Hoje é você que é acorrentado e açoitado nas costas

Igual sua máquina industrial que decepa mão

Vão separar seus membros com cirúrgica precisão

Nem o GATE desarma a bomba da estupidez

Bem vindo à Serra Leoa com potencial dinamarquês”

Também há um rechaço firme à concepção de mundo individualista na música “Hoje Deus Anda de Bilndado” (2003):

Felicidade não é comer com talher de ouro,

Enquanto meu filho brinca no esgoto

Dinheiro é só papel, não vai pra sepultura,

No fim é só herdeiro brigando por suas indústrias”

*

Dumdum nasceu no dia 25 de março de 1970 em São Paulo e, como muitos outros brasileiros pobres, estudou somente até a quinta série e começou a trabalhar muito cedo para ajudar no sustento da família. Antes de completar a maioridade, já havia trabalhado como jornaleiro, em fábricas, em peixarias e fazendo carretos. Conheceu o RAP através de um show dos Racionais MC’s e viu ali um potencial de extravasar sua revolta e ódio de classe que vinha acumulando na sua sobrevivência nas periferias de SP. Nos anos 80 e 90 as periferias e favelas de SP eram conhecidas por ser alguns dos locais mais violentos do mundo. Famosamente nesta fase o Jardim Ângela na Zona Sul de SP (local onde inclusive Dumdum circulava) tinha uma taxa proporcional de homicídio mais elevada que a guerra da Iugoslávia que estava em curso e era noticiada como um dos conflitos mais mortíferos de então do planeta.

Em meio a esta verdadeira guerra civil contrarrevolucionária que se desenvolvia contra as massas mais pobres e a um cenário de quase que aniquilamento completo do movimento revolucionário no país que havia sido legado pelo regime militar, o RAP foi visto por muitos jovens de então como uma forma de responder através da arte à brutal opressão policial, à miséria, ao racismo e a tantas outra injustiças já conhecidas pelo nosso povo levada a cabo pelo velho Estado com o objetivo de amedrontar, oprimir, desunir e desorganizar o povo. Neste contexto, Dumdum – já tendo passado por um Centro de Detenção Provisória e tendo conhecido por dentro as entranhas do Aparthaid brasileiro, cria junto com dois amigos o grupo Fator Extra no final dos anos 80. Posteriormente ele é chamado a participar do Facção Central pelo MC Nego e em 1991 ele convida Eduardo Taddeo a participar do grupo, que começa a se estabelecer a partir daí como uma das vozes mais contundentes do RAP nacional. Com esta formação, e contando também com Erick 12 como DJ que ingressa em 1997, o FC faz história lançando álbuns históricos do RAP nacional, como “Versos Sangrentos” (1997), “A Marcha Fúnebre Prossegue” (2001) e “O Espetáculo do Circo dos Horrores” (2006). Já sem a participação de Eduardo Taddeo, o FC lança os álbuns “A Voz do Periférico” (2015) e “Inimigo n 1 do Estado” (2020).

Dumdum, Érik 12 e Eduardo Taddeo

As letras de Dumdum sempre tiveram como característica marcante um profundo a genuíno ódio de classe, uma revolta incontrolável que se expressou, por exemplo, na música “Justiça com as Próprias Mãos” (2001), onde é narrado o sequestro de um político rico:

De joelho aos meus pés tá inofensivo,

Nem parece o monstro do horário político

Que com a dor do indefeso compra a Mercedes

Coloca obra de arte valiosa na parede

Eu to aqui defendendo o interesse da favela

que quer teu sangue pra preencher o vazio da panela

Vim fazer vingança, buscar indenização,

Pro seu crime hediondo, justiça com as própras mãos”

[…]

Cadê a verba do menor infrator queimando na TV,

Suficiente pra Harvard, pra FGV

Em vez de faculdade pro meu filho

Abre seu crânio com um M16, 30 tiros

Faz uma pá de futuro promissor, feliz

Tá no banco dos réus ouvindo a sentença do juiz

Quantas facadas merece o porco

Que faz o macarrão do lixo ser meu almoço?”

[…]

Agora chora igual neném sem mamadeira faminto,

A cada soco na cara, “por favor, me deixa vivo”

Vou dar choque com a frieza do investigador

Arrancar sua unha igual no DP, doutor

Vou ver se escorre sangue azul na veia do rico

Quebrar seu dente, tipo choque no presídio

Eu não sou louco, se pá é muito pouco

Tinha que com uma ponto 40 arrancar seu olho”

Ou na música “Inimigo n 1 do Estado” (2020), onde ele descreve a brutalidade do velho Estado genocida e a resposta que isto gera por parte das massas:

Com disposição pra guerra e pra paz

Justiça na periferia é nós mesmo que faz

Sintoniza a frequência do rádio, é Facção na ar

Toque de recolher, hoje o bicho vai pegar”

[…]

O sistema é covarde, mata inocente dentro de casa,

Mata na abordagem, te mata na rua

Com joelho no pescoço, dentro da viatura

Nas reintegrações de posse, nas passeatas

Humilha pai de família com tapa na cara, costela quebrada”

[…]

Nós é especialista em joalheria de shopping,

Faz burguês beiijar o chão, esvaziar o cofre,

Meu fuzil é o falante nas quebradas de São Paulo,

Facção central, inimigo número 1 do Estado”

O Facção Central é conhecido por ter a primeira obra e arte oficialmente censurada e proibida de ser exibida no Brasil após o término de regime militar, o que escancara tanto a farsa desta velha democracia, como o fato de o conteúdo de suas letras incomodarem as classes dominantes que estão sempre dispostas a se utilizar de seus aparatos judiciais e afins para silenciar vozes de revolta e rebelião. No caso se tratou da obra “Isso Aqui é uma Guerra” (1999), onde são descritas as condições objetivas que levam a juventude à criminalidade, embora Dumdum sempre tenha incentivado através de suas letras os jovens do povo a trabalhar honestamente e a estudarem, demonstrando através de músicas como estas que o caminho da criminalidade era um artifício da velha ordem para exterminar a juventude:

É uma guerra onde só sobrevive quem atira,

quem enquadra a mansão, quem trafica

Infelizmente um livro não resolve o Brasil

Só me respeita com um revólver, aí!

O juiz ajoelha, o executivo chora

Pra não sentir o calibre da pistola

Se eu quero roupa, comida

alguém tem que sangrar

Vou enquadrar uma burguesa e atirar pra matar”

*

Dumdum foi, sem dúvida, um dos maiores expoentes do verdeiro hip-hop em nosso país, sustentou até o fim uma bandeira de resistência contra a barbárie genocida do velho Estado – Cumpriu um papel muito importante na defesa da cultura popular e revolucionária e merece uma sincera e genuína homenagem solene, está gravado na grandiosa história de resistência do nosso povo. Inspirados no Dumdum e no verdadeiro hip-hop combativo, gerações tem se inspirado a colocar sua revolta em forma de arte, ainda que boicotados pelas grandes gravadoras e o monopólio de imprensa, seguem lutando ombro a ombro com o nosso povo e deixando a chama acesa de uma verdadeira cultura popular, a serviço da luta das massas. Em homenagem a ele e a tantos outros homens e mulheres que tombaram em meio a esta guerra sangrenta sonhando ver nosso povo viver com dignidade, reafirmamos nosso compromisso de seguir – enquanto tropa de choque da revolução – levando adiante a bandeira da justeza da violência revolucionária contra nossos opressores e da cultura popular de resistência. O ódio de classe marcado a ferro nas letras do Facção Central pulsa hoje no nosso sangue e nos impulsiona o prosseguir no caminho revolucionário da construção de um novo país e um novo mundo.

Vamos queimar constituição com coquetel-molotov

Carro bomba no congresso

Tique-Taque, explode”

[…]

Até quando comer restos, lavar banheiro

Abrir o boy no meio na ilusão de dinheiro

Ser exterminado como judeus em Aushcwitz

Mostrar pra globo o que é viver no limite

A cruz da Klan tá queimando na sua frente

A SS agora veste o cinza da PM

De braço cruzado, é só miolo espalhado no chão

Discurso ou revólver, tá na hora da revolução!

Tá na hora de parar de mofar no presídio

De tá no necrotério com um pá de tiro

De ser um analfabeto, comendo resto

Viciado que o Denarc manda pro inferno”

Dumdum e Eduardo Taddeo

Discurso ou Revólver, 2001

COMPANHEIRO DUMDUM, NÃO ESQUECEREMOS!

PRESENTE NA LUTA!

Comando Nacional da Unidade Vermelha – Liga da Juventude Revolucionária (UV-LJR)

Todas as músicas podem ser escutadas abaixo na mesma ordem de citação desse tributo solene:

Estamos Vivos

Apartheid no dilúvio de sangue

Justiça com as próprias mãos

Inimigo número 1 do Estado

Isso agui é uma guerra

Discurso ou revolver