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RJ: Ato político celebra 30 anos da Resistência de Santa Elina e proclama apoio total à luta pela terra em Rondônia

Reprodução A Nova Democracia.

Na última quinta-feira (28/8), mais de cem apoiadores da luta camponesa e da Revolução Agrária marcaram presença no auditório da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), durante um ato político que marcou os 30 anos da histórica Batalha de Santa Elina. O evento, organizado pelo Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (CEBRASPO), reafirmou o compromisso com o caminho da Revolução Agrária e denunciou com contundência os ataques das hordas paramilitares e forças de repressão contra os camponeses em luta em Rondônia.

O ato que trouxe à tona a memória da resistência camponesa na Batalha de Santa Helina contou com a presença de dezenas de organizações e entidades democráticas apoiadoras da luta pela terra. Em especial, do Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Helina (CODEVISE), que trouxe o relato histórico de camponeses que presenciaram a resistência.  

Iniciado o evento, uma carta de homenagem escrita pelo CEBRASPO foi lida em memória do intelectual, geógrafo e professor Ariovaldo Umbelino, falecido no dia 2 de agosto. A carta afirmou o legado de dedicação do intelectual que verteu sua vida em serviço da luta camponesa, atuando junto a movimentos socias no campo em defesa da terra para o campesinato.

Em seguida, a Associação Brasileira de Advogados do Povo (ABRAPO), representada pelo seu vice-presidente, o dr. Marino D’Icarahy marcou a denúncia da situação de repressão promovida pelas forças do velho Estado brasileiro aos camponeses que lutam por um pedaço de terra. Em sua fala, também repisou o conluio das instituições do judiciário junto ao latifúndio, legalizando a grilagem de terras públicas por meio da falsificação de títulos de propriedade para fazendeiros grileiros de terras da união. Por fim, deixou evidente a importância da luta pela terra e da Batalha de Santa Helina, que, em suas palavras, “definiram dois caminhos para o movimento camponês: o da conciliação e o da Revolução Agrária.”

CODEVISE: “Em 1995, decidimos morrer por aquela terra”

Ao longo do ato, o depoimento de camponeses remanescentes da Batalha de Santa Elina rememoraram os acontecimentos históricos da resistência ocorrida em 1995 na antiga fazenda Santa Helina. A dimensão do confronto ocorrido há 30 anos, denunciando os massacres e a mobilização dos camponeses e seus compromissos com a luta:

“O que acontece no campo é uma guerra acirrada. Quero deixar bem claro pros companheiros que, em 1995, nós não tínhamos emprego, comida, nada. Então decidimos morrer por aquelas terras. Conseguimos mobilizar 45 caminhões de fazenda pra Santa Elina. Nós estávamos em 2.500 famílias dentro daquela fazenda porque queríamos nos livrar da miséria e da escravidão — e, por isso, fomos atacados por pistoleiros e fazendeiros. Dentro da cidade, os pistoleiros, junto com a PM, ficavam passando encapuzados, ameaçando em cima de quatro, cinco caminhonetes. E nós não tínhamos medo, não, companheiros, porque nós não tínhamos lugar pra ir. Se fosse pra morrer, nós morreríamos trabalhando pelos nossos direitos!”

Durante o relato, um dos camponês se emocionou ao relembrar um dos episódios mais brutais da repressão, quando a pistolagem e as forças policiais aplicaram tortura e execuções contra mulheres e crianças: “Foram de madrugada abrir fogo em cima de pessoas. A maior tristeza que fizeram foi matar as crianças na nossa frente, com tiro de 12 no peito. Fizeram a gente comer os miolos dos outros companheiros. Por coisas assim companheiros, juramos pela bandeira vermelha nunca parar de lutar.”

Após, outros camponeses, vindo de uma delegação do Norte de Minas, deram seus depoimentos sobre a luta pela terra e sua importância para a transformação da realidade do país. Em suas falas, foi vinculada a importância da luta pela terra hoje com sua origem no caminho de Santa Helina, traçado em 1995. Relembrou a presença de outros companheiros históricos da luta popular que estiveram presentes ao lado dos camponeses em Corumbiara, como do eterno e amado professor Fausto Arruda, membro fundador da tribuna de A Nova Democracia.

Em suas falas foram denunciados os mais recentes ataques do BOPE contra a Área Revolucionária Valdiro Chagas, da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) em Rondônia, assassinando o camponês Raimundo Nonato. Em seguida, exaltado a vitória camponesa contra o cerco das forças de repressão em 2021, no Acampamento Tiago dos Santos (RO). Onde mais de quatro mil soldados, preparados para fazer um massacre, foram derrotados pela retirada estratégica dos camponeses.

Por fim, foi feito um chamado a todos os lutadores da causa do povo a se unirem firmemente aos camponeses na sagrada luta pela terra: “Essa é a história não só da resistência camponesa, mas da Revolução Brasileira. A base da extrema-direita no Brasil é o latifúndio, e a guerra que eles colocam contra os camponeses já está em fase avançada. É hora de romper o cerco! É uma convocação a todos os companheiros para se unirem aos camponeses!”

AND: “A luta pela terra revolucionária é a tropa de choque da libertação nacional e contra o fascismo”

O jornal A Nova Democracia esteve entre um dos convidados do ato por, segundo o relato dos camponeses, defender e propagandear há mais de 20 anos a luta pela terra no Brasil a serviço da causa democrática e dos interesses populares. O diretor geral, Victor Belizia, marcou a centralidade da Batalha de Santa Elina na formação de um novo caminho para a luta pela terra: “A batalha camponesa de Santa Elina separou dois campos no movimento camponês. Toda a possibilidade de vitória frente ao latifúndio nasce ali — com um movimento esclarecido, disposto à revolução.” 

Sobre a situação atual de repressão contra a luta pela terra, denúnciou as movimentações encabeçadas pelo comandante geral da PM de Rondônia, Regis Braguin, e do Coronel reformado do exército, Fernando Montenegro, coach dos Kids Pretos, em tentarem promover um cerco na opinião pública contra os camponeses. Denunciando a repressão atual, afirmou: “Está em curso uma iniciativa para tornar ilegal a luta pela terra, criando opinião pública e pretexto para matar aqueles que lutam pela Revolução Agrária. Hoje, os camponeses estão resistindo às hienas do BOPE, que aqui fazem festa com cadáveres dos pobres. É urgente que nós, na cidade, façamos um esforço hercúleo de denunciar o que está acontecendo e apoiemos a luta revolucionária de Rondônia.”

Por fim, concluiu fazendo uma saudação calorosa aos camponeses em luta, sua importância para a destruição do latifúndio, nascedouro da extrema-direita e do fascismo no Brasil, e afirmou o compromisso de AND com apoiar a luta pela terra: “Os companheiros da luta pela terra na Amazônia são a tropa de choque da luta antifascista e da libertação nacional. Podem contar sempre com o AND.”

Entidades democráticas marcam presença e saúdam a luta pela terra

Na mesa do ato político estiveram presentes organizações de familiares vítimas de violência do Estado, sendo o Movimento de Mães de Manguinhos, Movimento Mães Sem Fronteiras, do Complexo do Chapadão e representante do Movimento Mães do Vidigal, que afirmaram a importância de se denunciar os assassinatos e a repressão que acontece com o povo no campo e nas favelas das grandes cidades.

Demais representantes do ato, como o representante da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Dr. Marcos Santiago prestou solidariedade à luta camponesa e criticou a concentração de terras e o poder do “agronegócio”. Apontou que os assassinatos recentes, as prisões e perseguições no campo são autorizados pela omissão e conivência do sistema jurídico: “Estamos vendo um esforço institucional para legitimar a violência contra os pobres do campo. Mas não vamos permitir o silêncio sobre essas mortes. Há um abismo entre o positivismo jurídico e a realidade que vivemos. Nada está garantido — tudo deve ser conquistado!”

Representantes do grupo Tortura Nunca Mais contextualizaram a repressão ao campo dentro da continuidade de práticas herdadas do regime militar de 64: “Há um histórico de nazi-fascistas que sustentaram a ditadura e hoje financiam projetos como o ‘Invasão Zero’. Esses grupos, paralelos às milícias, se articulam desde a ditadura e seguem atuando.”

Diversas outras entidades e organizações democráticas e populares fizeram parte da manifestação, como o Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação – Regional 4, Centro pela Justiça e o Direito Internacional, Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação, Diretório Acadêmico de Direito da UFJF, Centro Acadêmico da Escola de Belas Artes da UFRJ, Centro Cultural Diquinho, Roda Cultural do Vistão, Coletivo Cultural Renato Nathan, Mesquita Islâmica de Juiz de Fora, Movimento Estudantil Popular Revolucionário e o Movimento Feminino Popular.

O auditório da universidade estava repleto de faixas em apoio à revolução agrária e bandeiras de movimentos democráticos e revolucionários. Faixas em defesa da Revolução Indiana e do Partido Comunista da Índia (Maoista) e da Liga Anti-Imperialista também estavam presentes, além das imagens dos heróis do povo brasileiro e, em especial, do dirigente do proletariado indiano, o camarada Basavaraj, tombado em combate em maio deste ano.

A delegação de camponeses vindos do Norte de Minas trouxe consigo produtos cultivados nas áreas camponesas: rapadura, pimenta, feijão preto e geleia de tamarindo foram alguns dos alimentos comercializados. Com simplicidade e firmeza, eles defenderam a importância da soberania alimentar e da luta pela terra como forma de produzir para o povo, não para o lucro dos latifundiários e do imperialismo.

MEPR

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