Introdução: O presente texto é um grande e importante estudo realizado pelo Núcleo de Estudos do Marxismo-leninismo-maoismo (NEMLM) que foi publicado pelo Jornal A Nova Democracia, nos 200 anos de Karl Marx em 2018, para proporcionar aos leitores de AND uma compreensão profunda de como Marx e Engels formularam sua teoria sempre imersos na prática da luta de classes, que caminho percorreram e que métodos aplicaram para chegar ao marxismo como ideologia científica do proletariado. Originalmente foi publicado em várias partes, aqui será publicado de forma integral.
De Karl Marx ao Marxismo
A doutrina de Marx é onipotente porque é exata. É completa e harmoniosa, dando aos homens uma concepção integral do mundo, inconciliável com toda a superstição, com toda a reação, com toda a defesa da opressão burguesa. O marxismo é o sucessor legítimo do que de melhor criou a humanidade no século XIX: da filosofia alemã, da economia política inglesa e do socialismo francês.
Lenin, As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo
O marxismo consiste em milhares de verdades, que podem todas ser resumidas numa única de que a rebelião se justifica!.
Presidente MaoTsetung, Discurso em Yenan por motivo da celebração do aniversário de Stalin
Em síntese, a ideologia do proletariado, a grande criação de Marx, é a mais alta concepção que se viu e se verá na Terra; é a concepção, é a ideologia científica que pela primeira vez dotou aos homens, à classe (principalmente) e aos povos, de um instrumento teórico e prático para transformar o mundo. E tudo o que ele previra vimos como foi cumprindo-se. O marxismo tem se desenvolvido, deveio em marxismo-leninismo e hoje marxismo-leninismo-maoismo, e vemos como esta ideologia é a única capaz de transformar o mundo, fazer a revolução e de nos levar para a meta irrenunciável: o comunismo.
Presidente Gonzalo, A entrevista do século
O grande Friedrich Engels afirmou que o marxismo era uma necessidade histórica e que, por sua vez, Karl Marx era uma casualidade. Essa afirmação abarca uma profunda compreensão materialista dialética da história e constitui um importante ponto de partida para analisarmos a gênese do marxismo. Trata-se, por rigor marxista, ao fim e ao cabo, da relação entre chefes – partido – classes e massas, como posteriormente foi sistematizado pelo camarada Lenin. Como também se trata da relação entre chefatura e pensamento-guia que a sustenta, como estabelecido pelo Presidente Gonzalo.
O que a afirmação de Engels nos mostra é que a ideologia científica do proletariado necessariamente seria sistematizada; pois, na verdade, essa ideologia representa o reflexo necessário, na consciência social, da luta de classes antagônicas entre burguesia e classe operária. Em particular, essa luta de classes se reflete no curso do desenvolvimento do movimento operário e de seu partido revolucionário, o Partido Comunista, como luta de duas linhas. Quando Engels fala em casualidade, quer dizer que não fosse Marx o sistematizador dessa ideologia científica, necessariamente caberia a outro revolucionário proletário essa árdua tarefa.
O marxismo, portanto, não é produto exclusivo da genialidade desse titã do proletariado chamado Karl Marx. O marxismo é fundamentalmente o produto da luta da classe operária contra a burguesia e o capitalismo na Europa, no final do século XVIII e início do século XIX. O marxismo é, também, produto da luta de duas linhas que se deu na direção do movimento operário europeu e do Partido Comunista à época. E ao indivíduo Karl Marx, só lhe foi possível sistematizar essa ideologia, não só por desde cedo se vincular ao movimento operário, mas por ter sido o fundador do Partido Comunista, que em árdua luta de duas linhas derrotou, ao longo dos anos, as posições pequeno-burguesas e utópicas de Proudhon e Blanqui, a posição anarquista, pseudo-científica de Bakunin e a influência reformista de Lassale na socialdemocracia alemã.
A luta de classes não foi apenas o impulso inicial da ideologia científica, o pensamento de Marx se desenvolveu, se completou, se transformou em Marxismo, porque sempre esteve fundido na prática à luta e a todas as vicissitudes da classe operária. Como parte da genialidade de Marx está o seu manejo da Linha de Massas, verdadeiro selo de classe em sua teoria do conhecimento. Marx soube sistematizar as ideias dispersas do proletariado europeu, soube ver por detrás de suas consignas espontâneas a solução histórica para os desafios estratégicos da revolução proletária.
Após ter sido expulso da Alemanha, em 1843, pelo governo prussiano e pouco tempo depois, em 1845, da França, Marx, juntamente com Engels e um pequeno grupo de comunistas se instalam em Bruxelas, capital da Bélgica, e lá conformam o chamado Comitê de Enlace, que atuava conjuntamente a outras organizações operárias alemãs e francesas, principalmente.
No início de 1847, Marx e Engels são convidados a ingressar na Liga dos Justos, organização clandestina de operários alemães cuja atuação se dava principalmente no exterior, particularmente em Paris e Londres. A Liga dos Justos, ideologicamente, era influenciada pelo socialismo pequeno-burguês de Proudhon e, do ponto de vista prático, pelas táticas putschistas de Auguste Blanqui, com cujo grupo haviam atuado na rebelião de 1839 em Paris. Marx e Engels, e seu pequeno grupo sediado em Bruxelas, ingressam na Liga dos Justos como uma Fração Vermelha e nos dois Congressos, realizados em 1847, travam uma vitoriosa luta de duas linhas, particularmente contra a influência proudhonista que representava a posição de direita no movimento operário francês.
No início daquele ano, Marx havia publicado Miséria da filosofia, que segundo Lenin é a primeira obra madura do marxismo. Neste importante trabalho, que era uma resposta ao livro Filosofia da miséria de Proudhon, Marx atacava as concepções idealistas da economia política proudhoniana, bem como a sua visão pequeno-burguesa de só ver no proletariado a sua condição miserável de vida; é nesta obra, também, que Marx desenvolve o conceito de antagonismo em sua dialética materialista.
O II Congresso da Liga, realizado no final de 1847, teve duração de mais de dez dias e contou com a direção pessoal do grande Marx, que pôde responder cada uma das dúvidas daqueles militantes operários, explicando assim para aquela vanguarda os princípios do socialismo científico, isto é, os princípios do comunismo. Este Congresso consagra a vitória da Fração Vermelha na Liga e o aplastamento do proudhonismo. O lema da organização, “Todos os homens são irmãos” é substituído pela consigna imortal: Proletários de todos os países, uni-vos!; o nome da organização necessariamente teria que corresponder a este novo programa, assim a Liga dos Justos se transforma na Liga dos Comunistas. Estava fundado, pela primeira vez na história, o Partido Comunista; cuja ideologia deste Partido foi sistematizada no Manifesto do Partido Comunista, publicado pela primeira vez em Londres, no início de fevereiro de 1848. O Manifesto representa o surgimento do marxismo como o pensamento guia do movimento operário europeu e era a sustentação ideológica da condição de chefatura alcançada por Marx no movimento comunista do velho continente. A partir daí a ideologia científica do proletariado passava a se confundir inteiramente com o nome de seu fundador.
E essa ideologia só podia seguir seu desenvolvimento em meio ao aprofundamento da luta de classes na Europa e da luta de duas linhas no Partido Comunista. Em 1848, poucas semanas após a publicação do Manifesto, uma onda de revoluções democrático-burguesas sacudiu toda a Europa, especialmente Paris. A classe operária, como já o fizera antes na Inglaterra e na França, tomou parte ativa nessas insurreições, mas pela primeira vez tinha a seu dispor um pensamento guia. O pensamento de Marx era a expressão ideológica da passagem do proletariado da condição de classe-em-si à de classe-para-si. O Manifesto era o brado do Partido Comunista de conclamação à classe operária para tomar em suas mãos todo o poder político, através da violência revolucionária:
“Os comunistas não se rebaixam a dissimular seus objetivos e seus fins. Proclamam abertamente que seus objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam frente a ideia de uma revolução comunista! Os proletários nada têm a perder nela a não ser seus grilhões. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!” (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista).
A Liga dos Comunistas, como única organização comunista na Europa naquele momento, guardava, inevitavelmente, um duplo caráter: ao mesmo tempo em que era uma organização internacional, não apenas de operários alemães, como figurava nas decisões de seu Congresso, na prática, entretanto, era constituída na grande maioria de seus membros e dirigentes por revolucionários alemães, ou de países cuja segunda língua era o alemão. O próprio Manifesto foi impresso em alemão, em 1848, mas sua tradução para uma segunda língua, no caso o inglês, só ocorreu em 1852. O pensamento de Marx, naquele momento, era também conhecido como o “socialismo científico alemão”. Este caráter da Liga dos Comunistas fica patente na atuação da organização durante as revoluções de 1848. A atuação da Liga foi fundamentalmente em território alemão lutando contra o reino da Prússia e o império da Áustria, e por uma revolução democrático-burguesa que unificasse, sobre novas bases, uma Alemanha republicana.
No entanto, em 1848, o palco mais intenso da luta de classes na Europa foi, uma vez mais, a França. Em fevereiro, estoura uma insurreição contra a monarquia da dinastia dos Orleans, que estavam no poder desde 1830. A burguesia francesa, tendo a classe operária armada como seu principal aliado, consegue derrubar o rei Luís Felipe e instaurar a República. Logo após esta nova derrubada da monarquia, a burguesia francesa inicia seus esforços por desarmar o proletariado. O proletariado francês, todavia, dentre toda a classe operária europeia, era o mais experiente em revoluções. Em menos de um século atuara: como força secundária na Grande Revolução de 1789; em seguida, durante o Império Napoleônico atuou como soldado na expansão democrática no início do século XIX; depois, assistiu suas poucas conquistas, alcançadas na revolução burguesa, serem retiradas após a restauração da dinastia dos Bourbons, em 1815; também, o proletariado participara da insurreição de 1830, que pela segunda vez derrubou os Bourbons e mais uma vez viu frustrados seus interesses com a instalação de uma monarquia constitucional. Era esta monarquia constitucional que agora se derrubava, em 1848, mas desta vez o proletariado não se unificava em torno das bandeiras burguesas; de armas em punho desfraldava suas próprias consignas: pelo “direito ao trabalho” e pela “república socialdemocrata”.
O inevitável antagonismo de classes, entre a burguesia e o proletariado, constatado por Marx em 1847, se confirmou em junho do ano seguinte, quando pela primeira vez na história houve um enfrentamento direto, armado e sangrento da classe operária contra a burguesia e sua república. A insurreição operária havia sido derrotada, mas “o sangue não aplasta a revolução, senão que a rega”; as lições de junho de 1848 teriam importantíssimas implicações políticas e táticas para o desenvolvimento do movimento operário e de seu Partido.
Assim que estoura a revolução de fevereiro, na França, Marx é expulso da Bélgica e se dirige a Paris revolucionária, de onde também é “convidado” a se retirar – e dessa vez o “convite” foi feito pelo novo governo burguês. O governo da revolução de fevereiro estava custeando a viagem do máximo possível de operários alemães e mesmo de outras nacionalidades para atravessarem as fronteiras francesas em direção aos territórios dominados pela Prússia e pela Áustria. A justificativa era o apoio à revolução burguesa, também em curso nos territórios prussiano e austríaco, que em março de 1848 assistiram grandiosas insurreições populares em Berlim e Viena. O real objetivo, entretanto, do governo burguês parisiense era “limpar” o máximo possível a cidade de revolucionários. No entanto, tornara-se importante objetivo político para Liga dos Comunistas dirigir-se à Alemanha pois, mirava assim, intervir diretamente no curso da revolução democrático-burguesa alemã. Ainda na Bélgica, frente aos tumultuosos acontecimentos em todo o continente, a direção da Liga toma uma importantíssima decisão:
“Estávamos todos, precisamente, a dar o salto para Paris e, assim, a nova autoridade central decidiu igualmente dissolver-se, transferir todos os plenos poderes para Marx e mandatá-lo para que constituísse logo em Paris uma nova autoridade central.”
(Engels, Para a história da Liga dos Comunistas)
Essa decisão da autoridade central da Liga dos Comunistas era o reconhecimento e a defesa da condição de chefatura de Karl Marx. Foi uma grande decisão, pois, mais do que nunca, os momentos de auge revolucionário exigem a centralização absoluta da direção revolucionária. A implicação imediata do reconhecimento da condição de chefatura de Marx foi a resolução tomada por ele, de que a Liga não deveria participar dos corpos “revolucionários”, organizados pelo governo burguês da França, que pretendiam invadir a Alemanha e assim impor a instalação de uma república democrática. Marx antevira o fracasso de tal estratégia que conduziria em última instância ao fortalecimento das monarquias prussiana e austríaca. A deliberação de Marx foi de que os membros da Liga deveriam cruzar imediatamente as fronteiras alemãs e desde lá apoiassem e participassem do processo revolucionário em curso, colocando em prática a tática política exposta no Manifesto quanto à atuação dos comunistas nas revoluções democrático-burguesas. Dessa maneira, Marx e Engels se dirigem para os territórios alemães e se instalam em Colônia, principal cidade da província Renana. A chegada da direção e da chefatura da Liga dos Comunistas a Colônia foi acompanhada pela publicação das Demandas do Partido Comunista na Alemanha, na qual se podia ler:
É pelo interesse do proletariado alemão, da pequena burguesia e dos pequenos camponeses, que apoiamos essas demandas com toda a energia possível. Apenas com a realização dessas demandas, os milhões na Alemanha — que sempre foram explorados por um punhado de pessoas e que são aqueles que os exploradores querem que continuem em tal situação — ganharão direitos e chegarão ao poder, que os convoca como produtores de todas as riquezas.
As referidas demandas eram constituídas por um conjunto de 17 proposições políticas que sistematizavam as reivindicações democráticas apresentadas no Manifesto do Partido Comunista. As demandas foram publicadas no dia 24 de março de 1848, em território alemão, poucos dias depois das já referidas insurreições de Berlim (18 de março) e de Viena (13 de março). Essas insurreições representavam o ponto culminante da luta da burguesia alemã contra a base econômica feudal e sua expressão política: a monarquia.
Em Berlim, capital do Reino da Prússia, o levantamento armado é esmagado violentamente, o rei Guilherme IV procura se eximir da responsabilidade do massacre e ordena a retirada das tropas da cidade, que passa a ser controlada por uma milícia civil. Em Viena, a manifestação resultou na demissão do principal ministro do imperador da Áustria, Fernando I. Ao se instalarem em Colônia, Marx e Engels fundam a Nova Gazeta Renana, que se tornou o principal jornal porta-voz da revolução democrática da Alemanha. Ele era o jornal legal da Liga dos Comunistas, que seguia sua atuação na clandestinidade frente às perseguições do Reino da Prússia e do Império Austríaco.
No entanto, logo após a insurreição operária de Paris, em junho de 1848, a burguesia alemã, que já era extremamente vacilante na sua luta contra os senhores feudais e a monarquia, se torna ainda mais temerosa e desconfiada de seu principal aliado, o proletariado. A burguesia renana, que era da região mais avançada industrial e politicamente, capitulou da luta pela direção política do processo revolucionário e cedeu lugar à burguesia de Berlim que, em acordo com o rei da Prússia, convocou uma Assembleia Nacional Constituinte. Essa Assembleia, em 1849, aprovou uma constituição, cuja a principal decisão era o coroamento de Guilherme IV como imperador da Prússia.
A Liga dos Comunistas teve poucas condições de atuar num processo revolucionário que não foi, verdadeiramente, levado a termo. O fato de sua atuação anterior ter se concentrado principalmente no estrangeiro e a dificuldade de uma atuação centralizada nas regiões da Prússia e da Áustria, prejudicaram enormemente a atuação dos comunistas. Em 1849, inicia-se o processo de perseguição reacionária. No mês de maio, a Nova Gazeta é fechada pelo governo prussiano, Marx é novamente preso e expulso da Alemanha. Em 1850, na Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas, Marx apresenta o balanço da revolução democrática alemã:
“Ao passo que os pequeno-burgueses democratas querem pôr fim à revolução o mais depressa possível, realizando, quando muito, as exigências atrás referidas, o nosso interesse e a nossa tarefa são tornar permanente a revolução até que todas as classes mais ou menos possidentes estejam afastadas da dominação, até que o poder de Estado tenha sido conquistado pelo proletariado, que a associação dos proletários, não só num país, mas em todos os países dominantes do mundo inteiro, tenha avançado a tal ponto que tenha cessado a concorrência dos proletários nesses países e que, pelo menos, estejam concentradas nas mãos dos proletários as forças produtivas decisivas. Para nós não pode tratar-se da transformação da propriedade privada, mas apenas do seu aniquilamento, não pode tratar-se de encobrir oposições de classes, mas de suprimir as classes, nem de aperfeiçoar a sociedade existente, mas de fundar uma nova.”.
O balanço do insucesso da revolução democrática, apoiada pela Liga dos Comunistas, era o balanço da primeira aplicação concreta da tática propugnada no Manifesto do Partido Comunista. A inconsequência da burguesia alemã fora assim resumida por Marx, em dezembro de 1848: “sem fé em si própria, sem fé no povo, resmungando contra os de cima, tremendo perante os de baixo, egoísta para com os dois lados e consciente do seu egoísmo, revolucionária contra os conservadores, conservadora contra os revolucionários”. Ao falar da “revolução em permanência”, Marx antecipava a necessidade, cada vez premente, do proletariado não só apoiar as revoluções democráticas, mas de assumir sua direção como necessidade para que seja levada de maneira consequente. Esse importante aporte ao socialismo científico, parte do balanço de sua direção pessoal na revolução alemã, foi plenamente desenvolvido pelo camarada Lenin durante a Revolução de 1905, já dentro do estágio superior do capitalismo, isto é, o imperialismo, e pelo Presidente Mao como especificação das revoluções democráticas nos países coloniais e semicoloniais.
No entanto, o balanço mais importante feito por Karl Marx das revoluções de 1848 será do processo francês, exatamente por ter sido o mais radical e profundo, no qual se expressaram de maneira mais aguda o antagonismo de classe entre a burguesia e o proletariado. Em suas obras As lutas de classes na França e em O 18 brumário de Luís Bonaparte, Marx analisa, como nenhum outro, a história francesa, especialmente de 1848 até 1851, quando Napoleão III, após ser eleito presidente da França, promove um golpe de Estado e restaura novamente a monarquia, nomeadamente o Segundo Império. Como nos indica Engels na introdução de 1895, será sobretudo em As lutas de classes que Marx avançará no desenvolvimento do socialismo científico. Marx, aplicando a linha de massas, sistematiza a consigna levantada espontaneamente pelo proletariado francês de “direito ao trabalho”:
“No primeiro projeto de Constituição, redigido antes das jornadas de junho, figurava ainda o ‘direito ao trabalho’, esta primeira fórmula, torpemente enunciada, em que se resumem as reivindicações revolucionárias do proletariado. (…) O direito ao trabalho é, no sentido burguês, um contrassenso, um desejo piedoso e infeliz, mas por trás do direito ao trabalho está o poder sobre o capital e, por trás do poder sobre o capital a apropriação dos meios de produção, sua submissão à classe operária associada e, por conseguinte, a abolição tanto do trabalho assalariado como do capital e das suas relações mútuas. Por trás do ‘direito ao trabalho’ estava a insurreição de junho”.
Marx percebe que nessa “ideia dispersa” das massas havia uma grande questão política, por detrás de uma reivindicação “piedosa” estava a solução histórica de qual era o objetivo político do proletariado em sua conquista do Poder. Como bem ressalta Engels, em As lutas de classes, pela primeira vez é proclamada “a fórmula em que unanimemente os partidos operários de todos os países do mundo condensam sua demanda de uma transformação econômica: a apropriação dos meios de produção pela sociedade”. Essa síntese não estava no Manifesto, foi produto da luta de classes e da capacidade de Marx em ir “das massas para as massas”. Foi, também, nesse sentido, que Marx sistematizou a consigna do proletariado francês de “república socialdemocrata”, como sendo a ditadura do proletariado, a única capaz de assegurar a realização da “apropriação dos meios de produção”:
“Este socialismo é a declaração da permanência da revolução, da ditadura de classe do proletariado como ponto necessário de transição para a supressão das diferenças de classe em geral, para a supressão de todas as relações de produção em que repousam tais diferenças, para a supressão de todas as relações sociais que correspondem a estas relações de produção, para a subversão de todas as ideias que resultam destas relações sociais”. (Karl Marx, As lutas de classes na França de 1848 a 1850).
As revoluções de 1848, particularmente na França e na Alemanha, a partir da direção concreta de Marx na segunda e de seu profundo balanço da primeira, constituem o encerramento de uma fase no processo de conformação do marxismo. Correspondem ao acabamento da formulação do pensamento Marx, que por ele mesmo é assim sistematizado em uma carta, de 5 de março de 1852, a um de seus camaradas, Joseph Weydemeyer, que desde o USA preparava a primeira publicação de O 18 brumário de Luís Bonaparte:
“No que me diz respeito, não me cabe o mérito de ter descoberto nem a existência das classes na sociedade moderna nem a sua luta entre si. Muito antes de mim, historiadores burgueses tinham exposto o desenvolvimento histórico desta luta das classes, e economistas burgueses a anatomia econômica das mesmas. O que de novo eu fiz, foi:
Logo após as derrotas dos processos revolucionários, de 1848, abre-se na direção da Liga dos Comunistas uma importante luta de duas linhas. Se, por um lado, o proudhonismo e suas “soluções não antagônicas” havia sofrido uma importante derrota – ou um “golpe mortal”, como afirma Lenin –. por outro lado, as posições blanquistas seguiam influenciando os operários veteranos, oriundos da Liga dos Justos.
O golpe de Napoleão III e a restauração do Império na França, tal como o coroamento como imperador de Guilherme IV pela Assembleia Constituinte na Prússia, eram a expressão política da entrada de um período econômico de prosperidade e crescimento do capitalismo. Marx e Engels corretamente analisaram essa situação concluindo que “uma nova revolução só é possível como consequência de uma nova crise. Mas é tão segura como esta”. No entanto, a tática pequeno-burguesa do blanquismo, que apregoava a revolução como um golpe de uma minoria esclarecida (como a tomada de um prédio público ou de um palácio) desconsiderava completamente a análise econômica e política feita por Marx, e defendia que a tarefa do dia seguia sendo preparar para já novas insurreições. Dentro da Liga dos Comunistas, Karl Schapper encabeçou a defesa das posições blanquistas e provocou a divisão. Por outro lado, como mais uma expressão do processo de reacionarização e refreamento da situação revolucionária, tem-se a prisão de 12 militantes da Liga dos Comunistas e seus julgamentos, o que ficou internacionalmente conhecido como “Processo de Colônia”. O governo prussiano acusava estes 12 revolucionários por “alta traição”; oito deles foram condenados à prisão e quatro absolvidos.
Após o processo de Colônia, a Liga dos Comunistas é dissolvida e poucos meses depois a linha divisionista desaparecia. Segundo Engels, encerrava-se então “o primeiro período do movimento operário comunista na Alemanha”. Iniciava-se, por sua vez, a gestação de novas e mais elevadas revoluções; iniciava-se a gestação de um novo salto dentro da ideologia proletária, do salto que transformaria o pensamento Marx, guia da revolução proletária na Europa, no marxismo, ideologia universal do proletariado. A partir de 1849, Marx e Engels instalam-se na Inglaterra e retomam, num esforço concentrado e disciplinado, os seus estudos teóricos, particularmente da economia política burguesa.
Estando em Londres, e tendo às mãos uma vasta bibliografia, na Biblioteca do Museu Londrino, contando com o imprescindível suporte logístico de Engels, Marx pôde elaborar de maneira sistemática a teoria que representa o maior salto científico e ideológico em toda a história da humanidade. Após dez anos de árduo trabalho contínuo, nunca solitário – pois a residência dos Marx sempre foi uma espécie de sede do Partido Comunista para onde regularmente se dirigiam revolucionários e exilados políticos de todo o mundo – finalmente Marx pôde apresentar à classe um primeiro resultado de suas investigações. Trata-se da Contribuição para a crítica da economia política, publicado em 1859. O aspecto mais importante dessa obra é a aplicação extremamente precisa do materialismo dialético ao estudo da história e à descoberta das leis gerais que explicam o desenvolvimento da sociedade de classes, da contradição entre sua base econômica e sua superestrutura. Trata-se, portanto, de uma obra de profundo significado filosófico, no qual se estabelece em termos científicos e universais a teoria da luta de classes marxista.
No prólogo desta obra, Marx faz uma das mais brilhantes sistematizações de suas recentes descobertas:
“O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode resumir-se assim: na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social. Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela. Quando se estudam essas revoluções, é preciso distinguir sempre entre as mudanças materiais ocorridas nas condições econômicas de produção e que podem ser apreciadas com a exatidão própria das ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas em que os homens adquirem consciência desse conflito e lutam para resolvê-lo. E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de revolução pela sua consciência, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção.”.
Esses resultados teóricos alcançados por Marx ampliaram, imensamente, a significação universal de seu pensamento. A sua conclusão de que a história da sociedade é a história da luta de classes, encontrou ali uma demonstração completa, o que correspondia à sua generalização. A luta de classes é o motor da história, pois está nela a solução da contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção. No entanto, esse resultado, apesar de gigantesco, era ainda o início do salto de qualidade na ideologia científica do proletariado. Não bastava a explicação geral do desenvolvimento da história da humanidade, era necessário a descoberta da lei que rege o desenvolvimento e a crise da sociedade capitalista, demonstrando assim porque a luta de classes sob o regime capitalista conduz “necessariamente à ditadura do proletariado”. Como o próprio Marx afirma, no prefácio a O capital: “O objetivo final desta obra é descobrir a lei econômica do movimento da sociedade moderna”. A descoberta dessa lei que completa suas descobertas na filosofia – o materialismo dialético e o materialismo histórico – e quanto ao pensamento socialista – com o socialismo científico, o comunismo – consiste na transformação do pensamento Marx em Marxismo.
Lenin, em sua magnífica síntese do marxismo – o pequeno artigo Karl Marx1, afirma que o essencial na ideologia proletária é a sua doutrina econômica. Nesse texto, Lenin nos mostra que a lei econômica, descoberta por Marx, que explica o surgimento, o desenvolvimento e o fim da sociedade capitalista é a lei do valor e sua necessária decorrência: a mais-valia.
Em O capital, Marx inicia a explicação do funcionamento dessa lei a partir da mercadoria que é o elemento dominante da sociedade capitalista. A mercadoria é, em primeiro lugar, uma coisa que satisfaz uma necessidade qualquer do homem e, em segundo lugar, uma coisa que pode ser trocada por outra. A utilidade faz da mercadoria um valor de uso, já o valor de troca (ou simplesmente o valor) é, primeiramente, a relação proporcional que se estabelece na troca de um valor de uso por outro. O que permite que uma mercadoria possa ser trocada por outra é o fato de ambas serem produtos do trabalho, no entanto, o que há de comum nessas mercadorias não é o trabalho concreto de um determinado ramo de produção, mas o trabalho abstrato, o trabalho em geral. Cada mercadoria considerada isoladamente representa uma parte do tempo de trabalho socialmente necessário; o valor de uma mercadoria, portanto, é o tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção. Esse valor, entretanto, não pode ser medido de outra maneira que não seja na equiparação com outra mercadoria, por isso o valor de troca é a forma do valor. Ao longo do surgimento da sociedade capitalista, a forma do valor foi evoluindo de sua forma fortuita (quando uma mercadoria é trocada por outra ocasionalmente) para a forma geral do valor (quando, a partir da intensificação do processo de troca, se estabelece uma determinada mercadoria como o equivalente geral desse processo), até chegar à forma dinheiro do valor. Marx demonstra, então, que o dinheiro, como forma suprema do desenvolvimento da troca e da produção de mercadorias, encobre e dissimula o caráter social dos trabalhos parciais.
Num certo grau do desenvolvimento da produção de mercadorias, o dinheiro transforma-se em capital. A fórmula da circulação de mercadorias (M – D – M), isto é, a produção de mercadorias para a compra de outras, é substituída pela fórmula geral do capital (D – M – D’), ou seja, a compra para a venda com lucro. Esse acréscimo do valor primitivo posto em circulação é o que Marx chama de mais-valia. É precisamente esse acréscimo de valor que transforma o dinheiro em capital. No entanto, esse acréscimo de valor não poderia surgir da circulação de mercadorias, porque a troca só é possível entre valores equivalentes. Para obter a mais-valia “seria preciso que o possuidor do dinheiro descobrisse no mercado uma mercadoria cujo o valor de uso fosse dotado de propriedade singular de ser fonte de valor”, aponta Marx, em O capital. E esta mercadoria existe: é a força de trabalho humana, cujo o valor, como de qualquer outra mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para a sua produção (isto é, pelo custo de manutenção do operário e da sua família). O possuidor do dinheiro compra, por exemplo, a força de trabalho por 8 horas, mas em 4 horas (tempo de trabalho necessário) o operário cria um produto que cobre as despesas de sua manutenção e, durante as outras 4 horas (tempo de trabalho suplementar) o operário cria um sobreproduto não retribuído pelo capitalista, que constitui a mais-valia. Do ponto de vista do processo de produção, o capital deve ser distinguido em duas partes: o capital constante, investido nos meios de produção (instalações, máquinas, instrumentos, matéria-prima etc); e o capital variável, que é investido para pagar a força de trabalho. A taxa de mais-valia, entretanto, deve ser calculada pela relação entre o capital variável e a mais-valia produzida, que no exemplo acima seria de 100%.
O aumento da mais-valia é possível graças a dois processos fundamentais: o prolongamento da jornada de trabalho (mais-valia absoluta) e a redução do tempo de trabalho necessário (mais-valia relativa). Na sua análise da produção da mais-valia relativa, Marx estuda as três etapas históricas fundamentais do processo de intensificação da produtividade do trabalho pelo capitalismo: 1) cooperação simples; 2) divisão do trabalho e manufatura; 3) as máquinas e a grande indústria. Marx analisa também o processo de acumulação do capital, isto é, da transformação de uma parte da mais-valia em capital e do seu emprego não para satisfazer as necessidades pessoais do capitalista, mas para voltar a produzir. Marx demonstrou o erro de toda a economia política clássica burguesa, que considerava que todo o novo valor gerado no processo produtivo se convertia em capital e passava a fazer parte do capital variável. Na realidade, a mais-valia obtida se decompõe em meios de produção e capital variável. O crescimento mais rápido do capital constante em relação ao capital variável (resultante da necessidade do incremento contínuo da mecanização para aumento da produtividade) tem uma importância primordial para a explicação das crises cíclicas do capitalismo, e preparação das condições de sua substituição pelo comunismo.
A lei do valor, e sua especificação na sociedade capitalista, isto é, a mais-valia, é a base para toda a explicação dos diferentes fenômenos do capitalismo, desde a renda da terra até à tendência decrescente da taxa de lucro. A descoberta desta lei, além de representar a primeira análise completa, verdadeiramente científica, do modo de produção capitalista – análise essa que só poderia ser feita pelo proletariado revolucionário –, do ponto de vista ideológico, representa, com O capital, um pleno desenvolvimento da filosofia marxista, o materialismo dialético, aplicado ao estudo não apenas do surgimento, desenvolvimento e das crises do capitalismo, mas, sobretudo, de sua superação. A grande demonstração científica que o marxismo alcança nesse ponto culminante é de que a revolução proletária não é uma possibilidade abstrata, mas sim, uma necessidade histórica. Do alto da colina da revolução, contemplando séculos mil, Karl Marx proclama aos operários e povos oprimidos do mundo:
“O monopólio do capital passa a entravar o modo de produção que floresceu com ele e sob ele. A centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho alcançam um ponto em que se tornam incompatíveis com o envoltório capitalista. O invólucro rompe-se. Soa a hora final da propriedade privada. Os expropriadores serão expropriados.”.
A demonstração científica de que das entranhas da velha sociedade capitalista se gesta inevitavelmente a sociedade comunista, e de que “a violência é a parteira da história”, só poderia ser alcançada em meio ao desenvolvimento da luta de classes e da luta de duas linhas no movimento operário e comunista. Somente o podre revisionismo e o academicismo burguês podem apresentar esta obra como um trabalho de gabinete ou apenas de uma mente brilhante de um indivíduo. O capital foi publicado em 1867, três anos após a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), fundação essa que corresponde à constituição do Partido Comunista Mundial do proletariado, em um período de expansão das ideias do comunismo, que ultrapassavam pela primeira vez os limites da Europa. A AIT representou um importante desenvolvimento na concepção de partido do proletariado. Diferentemente da Liga dos Comunistas, aqui já há uma importante delimitação da organização internacional dos operários e de suas organizações nacionais, no primeiro capítulo de seus estatutos pode-se ler:
“Esta Associação é fundada no intuito de estabelecer um centro de comunicação e de cooperação entre as Sociedades Operárias existentes em diferentes países e voltadas para o mesmo objetivo, ou seja, a proteção, o progresso e a completa emancipação da classe operária.”.
Nesse sentido, a própria conformação da AIT era produto do desenvolvimento da luta da classe operária, durante o período após as revoluções de 1848, que foi o período caracterizado por Marx de gestação de novas revoluções. E, de fato, a fundação da AIT foi a correspondência necessária ao amadurecimento das condições objetivas para um novo auge revolucionário na Europa. A guerra austro-prussiana, de 1866, e franco-prussiana de 1870, seriam importantes prenúncios de grandiosos acontecimentos no movimento operário europeu.
A AIT é fundada em Londres, durante um comício de operários, em setembro de 1864. Nessa grande assembleia é eleita uma direção da Internacional e uma comissão é encarregada de redigir os estatutos e uma Mensagem inaugural, cujas versões aprovadas pela direção da AIT foram escritas pelo próprio Marx. Em seus congressos anuais, a AIT foi fortalecendo e expandindo-se como organização. Para que uma Sociedade Operária ingressasse na AIT era necessário a análise e aprovação de seus estatutos pelo Conselho Geral da AIT. Avançava-se, assim, de maneira progressiva para a concepção do centralismo democrático.
Durante os seus anos de existência (1864 à 1872), a principal luta de duas linhas na AIT se deu contra as posições pequeno-burguesas de Bakunin. Bakunin era um militante anarquista russo, que embora não tivesse uma base de massas e de organização concreta, com seu ecletismo teórico, servia de porta-voz das posições oportunistas de direita e de “esquerda” dentro da Internacional. De uma maneira geral, a posição de Bakunin era uma mescla do socialismo de Proudhon, da tática de Blanqui e de posições reformistas burguesas. Antes de ingressar na AIT, Bakunin fora dirigente da organização pacifista suíça Liga da Paz e da Liberdade. Depois de se ter derrotada a sua posição de fusão desta Liga com a Internacional – diante da recusa unânime da AIT – Bakunin solicita ingresso na Internacional, que se efetiva em 1868. Desde sua incorporação, Bakunin inicia um trabalho fracionista, atacando o Conselho Geral da AIT, particularmente a direção de Marx, acusando-o de autoritarismo. Bakunin sempre teve uma postura dúbia e desleal na luta interna, que durou quatro anos. As suas posições eram as seguintes: a abstenção do movimento político; negava o papel dirigente do proletariado, defendendo a principalidade da pequena-burguesia e do lumpesinato; defendia a “igualdade econômica e social entre as classes” e propunha a substituição da consigna de apropriação dos meios de produção pelo “fim do direito à herança”. Com essa plataforma reformista e “esquerdista”, típica da pequena-burguesia, Bakunin passou a servir como ponto de unidade tanto dos reformistas ingleses como Hales, como de nacional-socialistas como Mazzini da Itália, todos unificados em torno da consigna de autonomia para cada sessão nacional, numa flagrante resistência ao desenvolvimento do centralismo democrático proletário.
A posição de Bakunin foi fragorosamente derrotada no Congresso de Haia, em 1872, que aprovou o fortalecimento do Conselho Geral e ao mesmo tempo a expulsão de Bakunin da AIT. Essa foi uma importante vitória política do marxismo, que contou mais uma vez com a direção pessoal de Marx.
A luta de duas linhas contra Bakunin, na verdade, era a expressão da luta ideológica final do marxismo contra todas as variantes do socialismo utópico pequeno-burguês, que ainda eram predominantes na Europa. Do ponto de vista ideológico, O capital de Marx era a afirmação definitiva de que o marxismo era o único socialismo verdadeiramente científico. Do ponto de vista prático, a Comuna de Paris representou a derrota decisiva do anarquismo e do socialismo utópico, ou como sistematiza Lenin, em Marxismo e revisionismo:
“O marxismo triunfa incondicionalmente sobre todas as outras ideologias do movimento operário.”.
A Comuna de Paris foi o maior feito do proletariado internacional no século XIX. Como corretamente aponta o Presidente Gonzalo, é o marco indelével do início da Revolução Proletária Mundial, de sua primeira Grande Onda. Após a derrota da insurreição de junho de 1848, o proletariado francês uma vez mais confrontava de armas nas mãos a burguesia republicana, mas dessa vez a classe operária saiu vencedora. Entretanto, essa não foi uma tomada de poder planejada, ou dirigida por uma Sociedade Operária, vinculada à AIT. Em 1870, Napoleão III inicia sua guerra contra o Império da Prússia, a campanha francesa, no entanto, foi um fracasso e o próprio Napoleão foi aprisionado pelo Exército prussiano. Ato contínuo, a burguesia francesa toma o poder e instaura novamente a República. O Império prussiano impõe um duríssimo cerco à Paris, que se rende às tropas prussianas em janeiro de 1871. A maior parte do exército francês estava aprisionada pelo Império prussiano, apesar disso, o governo burguês, instalado em Versalhes, no dia 18 de março, envia tropas leais para desarmar a Guarda Nacional que havia resistido ao cerco prussiano em Paris. As tropas governamentais são derrotadas e a Guarda Nacional toma o poder na capital francesa. No dia 28 de março foi proclamada a Comuna de Paris – tremulava não mais a bandeira tricolor da França burguesa, mas a bandeira vermelha do proletariado.
Os membros da Comuna estavam divididos em dois grupos: o maior – que havia sido também a maioria no Comitê Central da Guarda Nacional – conformado por blanquistas, e o menor por membros da AIT. Dentre os membros da AIT, a maioria era composta por proudhonistas e apenas uma pequena parte de comunistas. Do ponto de vista político os erros e acertos se devem às posições blanquistas; do ponto de vista econômico a responsabilidade pelas principais medidas é das posições proudhonistas. Como faz ressaltar Engels, nos dois casos a prática contrariou as concepções doutrinárias dessas duas escolas. O blanquismo, que defendia uma república com uma ditadura absolutista, conclamou toda a França a constituir uma federação de Comunas livres. Os proudhonistas, defensores da autogestão artesanal de cada unidade de produção por um pequeno comitê operário, aprovaram a criação duma organização para a grande indústria e inclusive para a manufatura, que não se baseava só na associação de operários dentro de cada fábrica, senão que devia também unificar todas as associações em uma grande União. A Comuna sobreviveu por dois meses ao cerco da burguesia francesa, que agora, com o apoio do recém-criado Império Alemão, bombardeou e derrotou a Paris proletária.
A Comuna de Paris comprovou historicamente o balanço marxista das revoluções de 1848. Ao proletariado não basta derrubar a burguesia do poder, faz-se necessário erigir um novo poder estatal sobre as cinzas do Estado da burguesia destronada do poder. A revolução proletária deve conduzir à ditadura do proletariado. Essa que foi a principal lição de 1848, mostrou-se como a principal falta que conduziu à derrota da Comuna. Suas maiores lições foram justamente naquilo que, na prática, se aproximaram do balanço marxista de 1848. No entanto, evidentemente, o fato heroico e histórico do proletariado francês trazia extraordinários ensinamentos ao proletariado internacional. Mais uma vez, foi Karl Marx que, manejando brilhantemente a linha de massas, soube tirar desses fatos históricos grandes ensinamentos que enriqueceram ainda mais a ideologia científica do proletariado. Assim nos diz Marx, em sua obra Guerra Civil em França, que foi aprovado como balanço da AIT, sobre a experiência histórica da Comuna:
“Era este o verdadeiro segredo, ela [a Comuna] era essencialmente um governo da classe operária, o produto da luta da classe produtora contra a apropriadora, a forma política, finalmente descoberta, com a qual se realiza a emancipação econômica do trabalho.”.
O segredo da Comuna, descoberto por Marx, é que ela resolveu, do ponto de vista histórico, a forma pela qual se realizaria a ditadura do proletariado. Ficava mais claro para Marx que essa ditadura significava a constituição de um governo proletário, como forma política de exercício de sua ditadura, garantidora da apropriação dos meios de produção. A Comuna de Paris representou tanto o apogeu da AIT como o seu limite histórico. A experiência memorável da classe operária francesa demonstrava que para o triunfo da revolução socialista fazia-se necessário a constituição de Partidos Comunistas marxistas em cada país, que lutassem de forma legal e clandestina pela conquista do poder para o proletariado e o estabelecimento de sua ditadura. Por isso, constituiu vitória na luta de duas linhas do marxismo contra o bakuninismo a última decisão do Congresso de Haia, em 1872, que foi da transferência do Conselho Geral da AIT para Nova Iorque, pois era melhor encerrar suas atividades na Europa do que ser “assassinada pela unidade sem princípios”. Por outro lado, a guerra franco-prussiana deslocara o centro de gravidade do movimento operário da França para a Alemanha e, por isso, terá grande importância o processo de constituição do Partido marxista neste país. Após a Comuna, como indicou Lenin, iniciava-se o período “relativamente pacífico” que se estenderia até 1905, com a Revolução Russa. O principal legado para o proletariado internacional do período que vai de 1848 a 1871 é justamente o estabelecimento cabal e completo, teórico e prático da ideologia científica do proletariado todo-poderosa, porque verdadeira: o marxismo.
O marxismo é ciência e ideologia. É a ideologia da classe mais revolucionária e última da história, o proletariado. Os inimigos do marxismo sempre o atacaram: ou demonizando-o ou deturpando-o. Por um lado, a academia burguesa e, por outro, o revisionismo (este último, atuando desde o seio do movimento operário). Além de esvaziarem do Marxismo a sua essência revolucionária, buscam reduzi-lo a simples método. A experiência da luta de classe e a história da revolução proletária confirmam o caráter científico da ideologia do proletariado e desmascaram o revisionismo e o academicismo burguês. Como ciência, o marxismo desenvolve-se conforme se modifica a realidade social para dar respostas aos novos problemas. Neste sentido, desde sua fundação o marxismo percorreu três etapas de desenvolvimento: marxismo, leninismo e maoismo.
Assim como foi com o seu surgimento, cada etapa de seu desenvolvimento deu-se através de duras lutas contra a sua negação. Na sociedade burguesa, quando as forças produtivas atingiram determinado grau de desenvolvimento material e espiritual (expresso nas mais avançadas correntes de pensamento, ou seja, a economia política inglesa, o pensamento socialista francês e a filosofia clássica alemã), tornou-se possível à ciência produzir um grande salto. Marx e Engels, já engajados na luta de classes ao lado do proletariado, partiram dessas três fontes e ao mesmo tempo da luta crítica a elas. Assim se conformou o Marxismo: economia política marxista, socialismo científico e filosofia marxista; o materialismo dialético histórico, três partes em indissolúvel unidade.
Portanto, o Marxismo, como bem o apresentou Lenin, tem três partes constitutivas. De tal forma que, quando a realidade modificou-se a ponto de que as teorias formuladas pelo marxismo, até então, não conseguiam responder aos novos problemas surgidos (e com isso intensificando-se a negação do marxismo por meio de diversos ataques), exigiu-se seu desenvolvimento a um nível superior. Isto é, dar um salto qualitativo no desenvolvimento das suas três partes constitutivas e dessas como unidade. Esse salto só tem sido possível de ser realizado por meio de duras lutas contra a sua negação, por meio da luta de duas linhas contra as linhas contrárias, burguesas, contra o dogmatismo e principalmente contra o revisionismo, em meio à luta de classes. Assim que, em um determinado momento, o Marxismo deveio-se Marxismo-Leninismo e, posteriormente, Marxismo-Leninismo-Maoísmo. Assim continuará sendo através dos tempos, pois uma vez que a Humanidade alcance a meta do Comunismo e, assim, desapareça para sempre as classes, ele seguirá como ciência para dar solução justa e correta às contradições entre o novo e o velho, entre o certo e o errôneo. A fundamentação da questão do salto de qualidade a um nível superior, significando uma nova etapa, não a faremos aqui, pois que não é o objeto do presente texto, mas a abordaremos nos textos seguintes a serem publicados. Aqui remarcamos que o Marxismo hoje é Marxismo-Leninismo-Maoísmo, principalmente Maoísmo. E, assim como sem Marxismo não poderia existir Leninismo, da mesma forma sem o Marxismo-Leninismo não existiria Maoísmo, pois que o Maoismo é o Marxismo de hoje.
Assim, o enfoque justo e correto sobre Marx e o Marxismo, rigorosamente só é possível partindo-se do Maoismo, sua terceira, nova e superior etapa de desenvolvimento, produto do desenvolvimento da luta de classes ao longo das transformações no capitalismo, que há mais de um século é capital monopolista, imperialismo. Época tormentosa essa em que a revolução proletária inaugurou uma Nova Era da Humanidade com a Grande Revolução Socialista de Outubro, a Revolução Proletária Mundial expandiu-se com grande protagonismo na segunda grande guerra imperialista, transformando-a em poderosa guerra de libertação dos povos com o advento de dezenas de revoluções em todo o mundo, principalmente com a Grande Revolução Chinesa, para mais à frente alçar-se ao patamar da Grande Revolução Cultural Proletária na China. Destes três grandiosos acontecimentos, dois deram luz ao Maoismo. Insistimos que só com o Maoismo, desfraldando-o, defendendo-o e aplicando-o, pode-se ser atualmente verdadeiramente marxista, marxista-leninista.
Por sua vez, tal compreensão do desenvolvimento do Marxismo por etapas nos foi dada pelo pensamento gonzalo, aplicação criadora do Marxismo-Leninismo-Maoismo à realidade do Peru pelo Presidente Gonzalo, chefatura do Partido Comunista do Peru e da Revolução Peruana, e por sua invencível guerra popular. Foi o Presidente Gonzalo quem fundamentou o Maoismo como terceira, nova e superior etapa de desenvolvimento do Marxismo: “O maoismo é a elevação do marxismo-leninismo a uma terceira, nova e superior etapa na luta pela direção proletária na revolução democrática, o desenvolvimento da construção do socialismo e a continuação da revolução sob a ditadura do proletariado, como revolução cultural proletária; quando o imperialismo aprofunda sua decomposição e a revolução transformou-se em tendência principal da história, em meio às mais complexas e grandes guerras vistas até hoje e à luta implacável contra o revisionismo contemporâneo”.
Portanto, o Maoísmo e as contribuições de valor universal do pensamento Gonzalo (a mais alta síntese do Maoismo) afirmam e sustentam que no curso da luta de classes na época do imperialismo, o proletariado – por meio de seu partido comunista – no processo da revolução proletária aplica as verdades universais de sua ideologia científica à respectiva realidade concreta e particular dos países, sejam estes imperialistas (onde demanda-se a revolução socialista) ou oprimidos (onde demanda-se a revolução de nova democracia ininterrupta ao socialismo). O processo da revolução gera necessariamente um pensamento guia que dirige o partido e a revolução em curso e forja a sua chefatura, que sustenta-se neste pensamento guia, servindo à revolução mundial.
Chegando-se ao momento da luta de classes do proletariado em que se demanda um desenvolvimento superior dessa ideologia, um determinado processo o produzirá, representando um desenvolvimento distinto e além dos demais processos. Nesse momento, o pensamento guia deste determinado processo devenirá à categoria de ismo, ou seja, já possuirá a condição de uma doutrina que interpreta cabalmente toda a matéria em suas três maneiras de expressar-se: a natureza, a sociedade e o conhecimento. Isto é, configurar-se-á uma nova etapa de desenvolvimento da ideologia. Assim foi o processo de conformação do Marxismo, do Leninismo e do Maoísmo. Sob esta luz é que podemos conceber de forma mais profunda e completa o processo de surgimento e desenvolvimento do Marxismo.
O surgimento da ideologia científica do proletariado, em sua conformação e elevação do pensamento marx ao Marxismo, só foi possível porque Karl Marx, desde fins de 1844, já atuava como destacado militante comunista entre as principais lideranças operárias na Europa. Juntos, Marx e Engels, em 1847, ingressaram na Liga dos Justos, e nela atuaram como Fração Vermelha na luta por fundamentar na ciência a causa proletária. Já no II Congresso dessa organização, em novembro daquele ano, lograram grande vitória contra o socialismo pequeno-burguês, particularmente o proudhonismo, com a Liga dos Justos passando a denominar-se Liga dos Comunistas e a desfraldar o lema: Proletários de todos os países, uni-vos!. Em fevereiro de 1848, é publicada a obra histórica, marco da fundação do socialismo científico e do pensamento marx: O Manifesto do Partido Comunista,com Marx reconhecido como sua chefatura.
Poucas semanas depois desta publicação, estourou em várias cidades do continente Europeu (Paris, Berlim, Viena, etc) uma grande onda de rebelião popular contra os regimes monárquicos. A mais importante delas ocorreu na França, onde depois de derrubada a monarquia e restaurada a república burguesa ocorreu pela primeira vez na história um conflito sangrento entre o proletariado armado e o regime estatal burguês. Trata-se da insurreição operária de junho de 1848. Logo após a publicação do Manifesto, Marx retornou para a Alemanha e dirigiu pessoalmente a intervenção da Liga dos Comunistas no processo revolucionário democrático burguês, pela república unificada alemã, contra o Reino da Prússia e o Império Austríaco. Mas mesmo de lá pôde, como nenhum outro, sistematizar de maneira brilhante as experiências da insurreição operária de Paris, enriquecendo e completando o salto representado no pensamento marx com o Manifesto. É em 1851, em As luta de classes em França, que, pela primeira vez, Marx irá formular as consignas de “apropriação dos meios de produção” e “ditadura do proletariado”.
O surgimento do pensamento marx (1847-1851), como uma ideologia científica se dá, desde o início, em suas três partes constitutivas: filosofia, economia política e socialismo. Como precisamente caracterizou o camarada Lenin, o livro Miséria da Filosofia, de 1847, é a primeira obra “madura do marxismo”. Nesse livro, no qual Marx combate o socialismo pequeno-burguês de Proudhon, encontram-se desenvolvidos os primeiros elementos do materialismo dialético e da economia política marxista; sua exposição está ainda em forma de polêmica, mas se dá justamente na crítica a Proudhon pelo mal uso que esse faz das ideias filosóficas de Hegel e econômicas de Adam Smith e David Ricardo. O socialismo científico, por sua vez, está exposto como um programa político completo no Manifesto do Partido Comunista.
O pensamento marx, portanto, surge como produto da luta de classes do proletariado europeu, no seu desenvolvimento em formas mais radicais de luta às vésperas da grande onda revolucionária que sacudiu a Europa, em 1848. Surge como produto da luta de duas linhas, do socialismo científico proletário contra o socialismo pequeno-burguês em sua expressão mais influente, que era a linha oportunista de direita de Proudhon; luta de duas linhas que ocorre no seio da vanguarda do proletariado, no nascente Partido Comunista, constituído graças a atuação de Marx e Engels como Fração Vermelha do movimento proletário revolucionário, na então Liga dos Justos. O pensamento marx é produto também da linha de massas, que é parte da teoria marxista do conhecimento, isto é, a reunião de ideias dispersas das massas sintetizadas por Marx e transformadas em consignas da luta da classe. E foi da experiência da insurreição de junho em Paris que Marx formulou a consigna da ditadura do proletariado. É, portanto, como chefe inconteste da Liga dos Comunistas, como formulador do conjunto teórico do pensamento marx (em suas três partes constitutivas: filosofia marxista, economia política marxista e socialismo científico) que Karl Marx se faz fundador do socialismo científico, do Comunismo e se fez chefe do primeiro Partido Comunista de autoridade e ascendência reconhecidas. Como seu camarada de armas, Engels, viu-se na necessidade de reafirmar: Marx foi a primeira chefatura do nascente Movimento Comunista Internacional.
O marco teórico do salto de qualidade atingido que eleva o pensamento marx ao Marxismo é a publicação, em 1867, da monumental obra O Capital, especificamente de seu Livro I. O marco prático desse salto qualitativo é a histórica Comuna de Paris (1871), bem como o balanço dessa experiência proposto por Marx: Mensagem do Conselho Geral, aprovado pela Conferência de Londres da Associação Internacional dos Trabalhadores (a I Internacional), em setembro de 1871. Do ponto de vista das três partes constitutivas do marxismo, como afirma o camarada Lenin, O Capital não é somente uma obra de economia política; nelo está contido, de forma mais desenvolvida, o pensamento filosófico de Marx, isto é, o materialismo dialético. Por sua vez, a Mensagem do Conselho Geral, que no próprio ano de 1871 teve três edições publicadas em inglês, representa um grande tratado do socialismo científico. Essas duas obras foram decisivas na luta de duas linhas para a derrota cabal do socialismo pequeno-burguês, particularmente em sua forma mais refinada, o anarquismo.
O elemento decisivo no avanço da ideologia do proletariado, de seu salto de qualidade, foi a luta de classes.
Se em 1848 Marx dirigia a Liga dos Comunistas durante a rebelião popular (cujo o ponto culminante foi a insurreição operária de junho em Paris), já em 1871 (23 anos depois) ele dirigia a I Internacional, que reunia inúmeras Seções de quase todos países da Europa, tendo dezenas de milhares de operários associados, dentre os quais estiveram aqueles que tomaram o poder em 18 de março, instituindo a Comuna de Paris.
O crescimento e avanço da luta proletária determinou, em última instância, o desenvolvimento e o salto de sua ideologia. Por sua vez, numa relação dialética, o salto nessa ideologia científica foi que permitiu ao proletariado e a seu Partido escalarem cumes cada vez mais elevados na luta de classes. Nos vinte anos que separam a publicação de Miséria da Filosofia e o O Capital, Karl Marx, a partir de um esforço monumental e do sacrifício pessoal e de sua família, logrou um feito extraordinário para o proletariado enquanto classe de todo o mundo. Do ponto de vista teórico, O Capital complementou e desenvolveu, em profundidade e extensão, todos os argumentos econômicos apresentados por Marx em sua obra de 1847.
O Capital foi uma obra decisiva na luta de duas linhas contra o socialismo pequeno-burguês. Se Miséria da Filosofia representou o golpe decisivo na linha oportunista de Proudhon, propiciando transformar a Liga dos Justos na Liga dos Comunistas, O Capital será chave na transformação da I Internacional de uma organização proletária de massas em uma organização socialista, em 1868, e posteriormente em uma organização comunista, em 1871, ainda que nela se convivesse com anarquistas.
O pensamento marx, até então, não havia logrado ainda a derrota ideológica definitiva do socialismo pequeno-burguês. Após 1848, as posições de Proudhon, na França, dos seguidores das ideias utópicas de Owen, na Inglaterra, de Lassalle, na Alemanha, dos populistas, na Rússia, todas essas como expressões do socialismo pequeno-burguês seguiam influenciando a maior parte do movimento operário europeu. Bem como correntes anarquistas e anarco-sindicalistas no crescente e numeroso proletariado dos Estados Unidos. Além dessas posições, existiam as correntes reformistas do sindicalismo inglês, oriundo do movimento operário cartista na Inglaterra dos anos de 1830, e as posições burguesas (democrático-republicanas), que em luta contra as monarquias europeias, também disputavam a direção do proletariado europeu. Tal tendência estava representada pelas correntes de Blanqui, na França, e Mazzini na Itália.
É em meio a esse conjunto de posições e linhas, em luta contra o oportunismo, contra a influência pequeno-burguesa e burguesa no movimento operário e comunista que o pensamento marx foi se impondo como verdadeiro e se desenvolvendo. A fundação da I Internacional foi resultado de grande manejo de Marx da linha de massas, da luta de duas linhas e do combate ao sectarismo. Era necessário congregar o máximo possível de correntes do movimento operário em torno das posições mais avançadas, para ir dando luta, uma a uma, contra as posições mais atrasadas. É esse movimento que Marx inicia em 1864, com a fundação da I Internacional e sua eleição para o Conselho Geral, sediado em Londres.
Dentro do Conselho Geral foi constituído um Comitê Permanente, que atuava como Fração Vermelha liderada por Marx na I Internacional. Em linhas gerais, as posições pequeno-burguesas se caracterizavam por expressar o protesto espontâneo do operário urbano artesão contra o capitalismo, e não do nascente proletariado industrial em sua contradição antagônica com a burguesia. Tanto a linha de Proudhon como a de Lassalle defendiam que o movimento operário não devia lutar nem por bandeiras políticas nem por reivindicações econômicas, como a da melhoria salarial ou da redução da jornada de trabalho. Essas posições conservavam as ideias utópicas que defendiam a necessidade dos operários se organizarem em cooperativas autônomas em luta pacífica contra o domínio econômico burguês. Do ponto de vista econômico, estavam, pois, contra a ideia da apropriação revolucionária dos meios de produção e, do ponto de vista político, se colocavam contra a ditadura do proletariado, contra a construção de um Novo Estado centralizado, único capaz de realizar essa socialização. Proudhon e Lassalle morreram ambos antes da fundação da I Internacional, mas suas ideias seguiam tendo importante influência no movimento operário europeu.
Por outro lado, as posições burguesas, como as de Blanqui e Mazzinni, não tinham contradição com a luta política; ao contrário, defendiam a prioridade desta luta, mas também subestimavam a luta econômica do proletariado, pois no fundo esta contrariava os seus interesses de classe enquanto representantes da burguesia. Quanto à tática, os blanquistas que representariam a posição hegemônica na Comuna de Paris, defendiam uma linha militarista, de que um pequeno grupo poderia dar conta da conquista do poder e da construção do novo regime. Os reformistas ingleses, por sua vez, defendiam a luta sindical, mas a superestimavam e, em geral, eram contra a luta política, ou tinham uma posição atrasada nessas questões.
Esse era o quadro da I Internacional, quando de sua fundação em 1864. Na Europa como um todo, as posições de Marx ainda eram minoria, mas no Conselho Geral, a partir do Comitê Permanente, ele foi conseguindo derrotar as posições pequeno-burguesas. Nesse processo de derrota e de imposição do socialismo científico, o salto de qualidade representado no pensamento de Marx, com a publicação de O Capital, foi importantíssimo. Como primeira mais importante luta de duas linhas na Internacional, contra as posições oportunistas, Marx escolhe, justamente, a questão da luta salarial como parte da luta contra o capital. Esse ponto atingia em cheio todas as concepções socialistas pequeno-burguesas e burguesas e, por outro lado, buscava elevar a consciência das posições dos sindicalistas ingleses sobre os limites desta forma de luta.
Em 1865, nas reuniões de 20 e 27 de junho do Conselho Geral da I Internacional, Marx apresentou um relatório que posteriormente seria publicado sob o título de Salário, Preço e Lucro. Neste ensaio de Marx, está adiantado aspectos importantíssimos das conclusões de O Capital. Esta obra é uma luta contra as posições de Weston, outro membro do Conselho Geral, que defendia, na esteira das posições utópicas de Owen, que a luta salarial era prejudicial para a classe operária, pois na medida em que os salários aumentavam, se elevavam também os preços dos produtos consumidos pela classe operária o que, portanto, conduziria a um pioramento de suas condições de vida. Essa linha era bastante semelhante à chamada “lei de bronze” defendida por Lassalle no movimento operário alemão, que afirmava que, inevitavelmente, os salários dos operários estariam limitados a um mínimo contra o qual era infrutífera qualquer luta de resistência.
Quando Marx, em 1865, apresenta o Relatório ao Conselho Geral, a sua teoria da mais-valia já estava plenamente desenvolvida. Em 1847, em Miséria da Filosofia, para Marx já estava claro a contradição antagônica entre o trabalho assalariado e o capital, bem como a importância da luta salarial para o movimento operário revolucionário. No entanto, Marx ainda não havia desenvolvido sua teoria da mais-valia, embora toda sua análise econômica já apontava nessa direção. A partir do aprofundamento de seus estudos e do conhecimento prático da luta operária, em 1865, Marx conclui, então, que no processo de exploração do trabalho assalariado pelo capital, o que o operário vende não é o seu trabalho, mas a sua força de trabalho e com ela o direito do capitalista explorá-la por uma determinada quantidade de horas. O preço da força de trabalho, assim como de qualquer outra mercadoria, de acordo com a lei do valor, era estabelecido pelo tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção, no caso da força de trabalho isso correspondia aos produtos consumidos pelo operário para que ele pudesse ter condições de trabalhar no dia seguinte. Marx comprovou, portanto, que o salário e o lucro disputam o mesmo produto que é a mais-valia criada pelo operário assalariado explorado pelo capital. Por fim, a posição utópica de Weston foi derrotada pelo Marxismo e a I Internacional passa a ter, de maneira completa, o fundamento científico de que a luta pela redução da jornada de trabalho, já defendida no Manifesto, e a luta pela melhoria salarial eram ambas parte integrante da luta do proletariado contra o capitalismo.
O impacto da publicação de O Capital, em 1867, foi imediato. A obra de Marx foi saudada publicamente em inúmeros congressos e por inúmeras associações operárias. Mas, evidentemente, a barreira do idioma e a complexidade da obra representavam uma dificuldade para a assimilação completa do Marxismo. Por isso, o impacto inicial mais profundo no movimento operário com a publicação de O Capital se dará no movimento operário alemão.
A direção oportunista da Associação Geral dos Operários Alemães, fundada por Lassalle, em 1863, e que após sua morte seguiu defendendo seus pontos de vista, sofreu uma dura derrota com O Capital, que servia de refutação contundente da referida “lei de bronze” usada como justificativa para a não organização da luta operária na Alemanha. Vanguardeados por Liebknecht e Backer, um importante processo de cisão ocorre nesta Associação; por outro lado, liderados por Bebel, inúmeros grupos da União das Associações Culturais dos Operários Alemães, fundadas também em 1863, rompem com a direção reformista-burguesa. Em 1869, as correntes de Bebel e Liebknecht se fundem no Congresso de Eisenach e fundam o primeiro Partido Operário Social-Democrata, que em seu programa assume completamente as teses da I Internacional. A fundação deste Partido é um grande logro do Marxismo, da condição de chefatura de Karl Marx no MCI e resultado direto da publicação de O Capital.
Na Conferência de Bruxelas da I Internacional, em 1868, foi aprovada uma resolução que recomendava aos membros da organização o estudo de O Capital, bem como o esforço por sua tradução a outros idiomas. No mesmo ano, o revolucionário populista russo Nikolai Danielson propõe à Marx a tradução, que efetivamente se inicia pelos esforços do revolucionário Lopatine. No entanto, Lopatine foi preso e enviado à Sibéria, sendo a tradução concluída pelo próprio Danielson. Em 1872, a versão russa é publicada em uma edição de 3 mil exemplares.
O esforço dos revolucionários russos por traduzir a grande obra marxista expressava a aproximação dos elementos mais avançados do populismo, corrente socialista pequeno-burguesa, das teses da I Internacional e, particularmente, da direção proletária e comunista de Marx. Esse interesse era recíproco e, em 1869, Marx começou seus estudos do idioma russo, que em pouco tempo já estava dominando, e iniciou uma intensa correspondência com revolucionários daquele país. O interesse de Marx, além de evidentemente político era também científico. Pois o estudo do processo de desenvolvimento do capitalismo no campo da Rússia foi fundamental para a formulação da teoria marxista sobre a renda da terra exposta no Livro III de O Capital.
Em 1870, foi constituída em Genebra a Seção Russa da I Internacional na Suíça. Esses precursores revolucionários russos solicitaram que Marx assumisse, junto ao Conselho Geral, o posto de correspondente desta Seção. Essa foi uma decisão muito importante na luta de duas linhas contra as posições anarquistas e oportunistas de Bakunin, que era de origem russa e advindo do movimento populista. Os populistas russos na Suíça tomaram firme posição ao lado de Marx contra o anarquismo de Bakunin, denunciando-o publicamente.
Desde esse período, Marx irá travar uma importantíssima luta de duas linhas contra as posições atrasadas dos populistas russos, procurando se apoiar nas conclusões mais avançadas do fundador dessa corrente, o democrata revolucionário Tchernichevski. Tchernichevski defendia que as comunidades camponesas russas, e suas formas comunitárias de propriedade da terra, representariam a via de desenvolvimento do socialismo na Rússia. Marx estudou com muito afinco a obra desse revolucionário e, de fato, considerou como possibilidade que a construção socialista no campo poderia se apoiar nessas formas comunitárias de propriedade. Alientou, no entanto, o erro de Tchernichevski em considerar que o desenvolvimento da grande indústria representaria um atraso para a revolução socialista. Toda essa luta de duas linhas com os populistas russos foi muito importante para o surgimento de um forte movimento marxista na Rússia, do qual rapidamente se destacou, entre muitos intelectuais e militantes proletários, o camarada Lenin.
Dentre os encontros da I Internacional, alguns terão maior importância, pois foram nos quais se travou de forma concentrada as Lutas de Duas Linhas mais importantes da organização. A cada evento da Internacional, fortalecido pelo impacto da publicação de O Capital e pelo próprio desenvolvimento da luta de classes na Europa, o Marxismo foi aos poucos se impondo como a única ideologia verdadeiramente proletária, porque científica, e a própria I Internacional foi avançando na sua qualidade ideológica.
No Congresso de Bruxelas, em 1868, pela primeira vez na história da I Internacional é incluído em seu programa a consigna da “apropriação dos meios de produção”; essa decisão marca o assumimento da I Internacional de um programa socialista. Bakunin ingressará, no ano seguinte, na organização representando a sua Seção Suíça. Após a morte de Proudhon e Lassalle, Bakunin se tornou o principal representante do socialismo pequeno-burguês na Europa, seu ingresso na I Internacional exigirá da Fração Vermelha marxista a intensificação da luta de duas linhas, o que também foi decisivo para o desenvolvimento da ideologia do proletariado. Em 1870, Bakunin foi derrotado pelos revolucionários russos na Seção Suíça da I Internacional e, em 1872, seria expulso da organização pelo Congresso de Haia.
O anarquismo, desenvolvido de maneira mais completa e decadente por Bakunin, representava a mistura eclética de elementos do proudhonismo, do lassallismo, das posições burguesas do tipo blanquistas, aspectos do reformismo inglês, e do populismo russo. A ideologia não-científica e pequeno burguesa de Bakunin incorporava do proudhonismo a sua defesa da forma de propriedade da pequena burguesia urbana; do lassallismo a sua aversão à luta salarial do proletariado industrial; do reformismo inglês a sua repulsa à luta nacional dos irlandeses; do blanquismo a fraseologia da ação revolucionária independente da participação das massas; e do populismo russo o niilismo e o individualismo extremo. O anarquismo representava portanto a linha oportunista pequeno-burguesa, mais desenvolvida e contra a qual o Marxismo travou sua luta de duas linhas mais importante no seu processo de conformação enquanto ideologia científica e universal do proletariado.
A luta contra as posições de Bakunin estavam apenas iniciando-se no seio da I Internacional quando, em março de 1871, estoura a Comuna de Paris, primeira experiência de assalto ao poder pelo proletariado e primeira experiência da ditadura do proletariado. Dentre as forças políticas da I Internacional, as que tiveram maior peso na direção da Comuna foram os blanquistas e os proudhonistas. O peso dos marxistas, dentre a direção dos communards, era minoritário, porém extremamente ativo. Apesar disso os marxistas se bateram com tremendo heroísmo nas batalhas de Paris e Karl Marx teve um papel decisivo na defesa política e ideológica do processo revolucionário francês. O Partido Operário Social-Democrata da Alemanha deu grandes provas de internacionalismo, defendendo publicamente a importância histórica da Comuna. Após sua derrota o Conselho Geral da I Internacional organizou de maneira decidida a solidariedade política e material aos exilados franceses.
A experiência da Comuna de Paris, as razões de sua derrota, comprovaram cabalmente a impossibilidade do socialismo pequeno-burguês, particularmente do anarquismo, de conduzir a revolução proletária ao triunfo. Os pontos positivos e negativos da Comuna, como nunca antes, serviram de lição ao proletariado sobre a necessidade do partido proletário, de seu exército revolucionário e a frente única para a conquista e defesa do poder, o exercício da ditadura do proletariado. A experiência concreta da Comuna mostrou como era vazia a proposição anarquista de destruição do Estado burguês sem sua imediata substituição por um Estado proletário, isto é, por sua ditadura revolucionária como condição única para se eliminar as classes sociais e assim o Estado extinguir-se. A experiência da Comuna comprovou que somente armado com seu próprio Estado o proletariado poderia expropriar da burguesia os meios de produção, concentrando-os em suas mãos.
E é esse balanço que Marx apresenta na Mensagem aprovada pelo Conselho Geral da Internacional, em junho de 1871. O impacto dessa Mensagem em toda a Europa e também na América foi enorme. Além de um balanço da Comuna, a Mensagem do Conselho Geral, assim como fora o Manifesto, constituía para a I Internacional a propagação de um completo e desenvolvido programa comunista, que além de propor a necessidade da ditadura do proletariado fazia o balanço de sua primeira experiência histórica e, antevendo os tempos futuros, proclamava de maneira profética que: A Comuna é imortal! A Mensagem do Conselho Geral teve uma difusão imediata, só na Inglaterra foram três edições no ano de 1871, sua tradução para outras línguas ocorreu no mesmo ano, pois era urgente ao proletariado de todo o mundo conhecer o balanço científico de sua primeira insurreição triunfante.
Em setembro de 1871, realiza-se a histórica Conferência de Londres da I Internacional. Essa Conferência representa o marco ideológico mais importante da esquerda no crescente MCI, pois nela estavam reunidos os setores mais avançados do movimento, que aprovam a Mensagem do Conselho Geral. Assim, a I Internacional assumia oficialmente o programa comunista e, ao mesmo tempo, colocava para si a necessidade de se constituir, portanto, em uma nova forma de organização. É o que claramente indica Engels em sua carta a Kugelman, quando afirma que a principal tarefa da conferência era a de “proceder a uma nova organização que corresponda às exigências da situação”. Ou seja, a Comuna de Paris colocava para o MCI que a tarefa mais importante naquele momento era a construção de Partidos Marxistas em cada país. A I Internacional havia cumprido sua missão histórica e eram necessárias novas formas de organização como único meio de fazer avançar o processo revolucionário e o desenvolvimento da ideologia do proletariado.
O discurso de Marx no encerramento da Conferência de Londres tem uma grande profundidade e aponta a necessidade da construção do que delineava-se como os três instrumentos da revolução:
“Mas, antes que uma tal transformação possa ser efetuada, será necessária uma ditadura do proletariado, e o seu primeiro pressuposto será um exército do proletariado. As classes trabalhadoras têm de combater pelo direito à emancipação no campo de batalha. A tarefa da Internacional é organizar e unir as forças dos operários para a luta que está a chegar.” (Discurso de Marx por motivo de celebração do 7º aniversário da I Internacional, 25 de setembro de 1871).
O Marxismo se impõe como a única ideologia científica do proletariado: o início de uma nova fase no Movimento Comunista Internacional
Após a Conferência de Londres, coube à esquerda a derrota cabal das posições anarquistas no Congresso de Haia. Todas as acusações dos poucos delegados anarquistas contra o Conselho Geral foram rechaçadas e o Congresso decidiu pelo fortalecimento dos poderes de sua direção e pela expulsão de Bakunin e de seu representante Gillaume das fileiras da I Internacional. Com a força científica de O Capital, com o heroísmo da Comuna de Paris e com o balanço programático da Mensagem do Conselho Geral, o Marxismo se conformou como única ideologia científica do proletariado, a única teoria científica do Comunismo. O Congresso de Haia marca essa vitória e a ausência de Bakunin, que fugiu da franca luta de duas linhas, preferindo seguir costurando intrigas sectárias, aliado agora com os reformistas ingleses, expressava a derrota completa do anarquismo e do socialismo pequeno-burguês diante do Marxismo. Desse período em diante, a ideologia burguesa nas fileiras do movimento operário só poderia confrontar a ideologia proletária sob a aparência “marxista”, em uma nova forma: o revisionismo. A sistematização e o complemento do desenvolvimento do Marxismo dar-se-á, a partir de então e, principalmente, na luta de duas linhas contra o revisionismo, num período no qual a luta de classes percorreu, nas palavras de Lenin, um “desenvolvimento relativamente pacífico”, que só seria encerrado com a primeira revolução Russa, em 1905. Serão essas contingências que buscaremos analisar na parte VI e VII do presente artigo.
Buscamos analisar o surgimento e desenvolvimento da ideologia científica do proletariado, o Marxismo, a partir do avanço da luta de classes do proletariado europeu, entre os anos de 1830 e 1871; da luta de duas linhas entre as organizações de vanguarda da classe operária, de como nessas organizações conformou-se uma esquerda, uma Fração Vermelha, a partir da qual desenvolveu-se um pensamento proletário e científico que representava a sustentação de uma chefatura reconhecida; de como essa Fração Vermelha, essa chefatura, manejando a linha de massas como meio correto de intervenção da vanguarda na luta de classes, logrou através da experiência concreta da luta revolucionária proletária enriquecer e complementar esta mesma ideologia. A partir do exposto pelo camarada Lenin e pelo Presidente Gonzalo, de que o Marxismo é conformado por três partes constitutivas, buscamos também analisar o desenvolvimento da ideologia científica do proletariado em suas partes constitutivas: a filosofia marxista, a economia política marxista e o socialismo científico. De maneira que apresentamos a seguinte síntese:
O pensamento marx forja-se em meio ao agravamento sem precedentes do antagonismo entre o proletariado e a burguesia, o que se expressa nos levantamentos de 1848, mas sobretudo na insurreição operária de junho daquele ano em Paris. A luta de duas linhas mais importante para a conformação do pensamento marx dá-se contra o socialismo pequeno-burguês de Proudhon. A Fração Vermelha dirigida por Marx derrota a linha direitista do proudhonismo no segundo Congresso da Liga dos Justos, que transforma-se em Liga dos Comunistas, adotando o lema: Proletários de todos os países, uni-vos!. Quanto a linha de massas, Marx manejou-a de maneira brilhante e a partir do balanço da insurreição operária de Paris de 1848, apresentado no documento A luta de classes em França, formulou o conceito de ditadura do proletariado. As principais obras do pensamento marx são: Miséria da Filosofia, de 1847, que em seu primeiro capítulo trata da economia política e no segundo da filosofia; o Manifesto do Partido Comunista, de 1848, que representa a formulação integral do socialismo científico. O pensamento marx, em suas três partes constitutivas, dava sustentação à condição de chefatura de Karl Marx do nascente Movimento Comunista Internacional.
O Marxismo forja-se em meio a um novo ascenso do movimento operário na Europa, bem como do agravamento das lutas de libertação nacional dos irlandeses e poloneses; esse ascenso encontra seu apogeu na imortal Comuna de Paris, em 1871. É em meio a esse quadro da luta de classes que é fundada, em 1864, a I Internacional, sendo Marx eleito para seu Conselho Geral. O Comitê Permanente do Conselho Geral constitui-se como Fração Vermelha da I Internacional, tendo Marx como chefatura. A luta de duas linhas mais importantes na conformação do Marxismo se dá contra o anarquismo de Bakunin que, como já dito, mesclava os piores aspectos das linhas de direita de Proudhon, Lassalle, dos reformistas ingleses, dos populistas russos e das posições burguesas no movimento operário. O Marxismo também se enriquece com o sagaz balanço proposto por Marx da Comuna de Paris, manejando uma vez mais a linha de massas; é dessa experiência que Marx descobre a forma política da ditadura do proletariado, o governo centralizado operário como condição para sua emancipação econômica. As principais obras que fazem do pensamento marx o Marxismo são: O Capital, o seu Livro I, no qual estão plenamente desenvolvidas a filosofia marxista e a economia política marxista; e a Mensagem do Conselho Geral, sobre a Comuna, que representa um salto na formulação do socialismo científico, a partir do balanço histórico da primeira experiência da ditadura do proletariado. O Marxismo, plenamente desenvolvido em suas três partes constitutivas, se impôs, então, como a única teoria científica do Comunismo.
1Os próximos três parágrafos são todos uma paráfrase de trechos do referido texto de Lenin.
Durante todo o feriado do maior carnaval de rua do Brasil, estudantes e ativistas da…
Reprodução A Nova Democracia. Entre os dias 2 e 4 de fevereiro, o Coletivo Aurora…
No dia 29 de Dezembro, ativistas do Movimento Feminino Popular – MFP e estudantes do…
No dia 28 de janeiro, ativistas da luta anti-imperialista realizaram contundente manifestação na cidade de…
Reprodução A Nova Democracia. As entidades e coletivos estudantis MEPR, Mangue Vermelho, Movimento Ventania e…
Publicamos a seguir, a tradução não-oficial da convocatória fpara o Congresso Fundacional da LAI feita…