Reprodução de A Nova Democracia
Estudantes do Instituto Satyajit Ray de Cinema e Televisão, em Calcutá, no estado indiano de Bengala Ocidental, enfrentaram uma sequência de ataques de organizações vinculadas à Associação Nacional de Voluntários (RSS, na sigla em inglês) após protestarem contra a realização de atividades hindutva dentro do campus. Em declaração repercutida por O Arauto Vermelho, a Frente Estudantil Revolucionária (RSF, na sigla em inglês) expressou solidariedade aos estudantes e situou as agressões numa ofensiva mais ampla contra universidades onde permanecem movimentos estudantis do campo popular e democrático-revolucionário.
O episódio mais grave começou em 27 de setembro, quando o Conselho de Consumidores de Toda a Índia (ABGP sigla em Hindi), organização fundada por quadros do RSS, realizou uma atividade no principal teatro do instituto. Segundo estudantes, a União Estudantil não havia sido informada previamente sobre a cessão do espaço. Quando alunos foram ao local colar cartazes questionando a decisão, teve início uma confrontação que terminou com dezenas de feridos.
A RSF afirma que integrantes do ABGP vinham realizando “declarações comunais provocativas” e que os estudantes foram atacados quando começaram a protestar. Em seu comunicado, a organização denuncia que “7 ou 8 estudantes foram feridos com facas e outras armas cortantes”, além de agressões contra mulheres, tomada de celulares e ataques contra estudantes que buscaram refúgio na biblioteca. Segundo a RSF, até o bibliotecário foi agredido.
Outras fontes registraram uma dimensão ainda maior dos ferimentos: aproximadamente 30 estudantes e dois professores ficaram machucados; cerca de 25 alunos precisaram de atendimento hospitalar e pelo menos dois foram internados. Os estudantes acusaram membros do grupo de chamá-los de “antinacionais”, “terroristas”, “naxalitas urbanos”, “paquistaneses” e “bangladeshianos”. O ABGP, por sua vez, afirma que seus integrantes foram atacados após estudantes interromperem a atividade e danificarem cartazes; quatro membros da organização também teriam sido hospitalizados.
Estudantes resistem e impedem avanço do grupo
Segundo a RSF, os estudantes reagiram coletivamente às agressões e conseguiram fazer recuar os integrantes do ABGP que estavam dentro do instituto. A organização afirma que estudantes chegaram a reter alguns dos acusados de participar dos ataques até a chegada da polícia.
“Os estudantes do SRFTI construíram uma resistência conjunta e obrigaram as forças fascistas a recuar”, afirma o comunicado da RSF. A organização acusa ainda a polícia de ter chegado sobretudo para retirar do campus os integrantes do ABGP que haviam sido detidos pelos estudantes, enquanto grupos maiores se concentravam do lado de fora.
De acordo com a União Estudantil, pessoas reunidas fora do instituto passaram a lançar pedras, tijolos e garrafas para dentro do campus. A RSF afirma que entre os presentes estavam dirigentes e militantes ligados ao RSS, BJP, ABGP, à organização juvenil do BJP e a outras estruturas fascistas-hindutva. A imprensa local confirmou a presença de uma multidão fora dos portões e o lançamento de objetos durante o confronto.
A RSF contestou também a versão segundo a qual os próprios estudantes teriam provocado os distúrbios. “A afirmação dos monopólios de imprensa de que ‘os estudantes estão criando desordem’ é uma propaganda completamente falsa e própria de seu caráter”, declarou a organização.
Uma semana depois, nova tentativa de invasão
A advertência da RSF de que poderiam ocorrer novos ataques não demorou a se confirmar. Em 4 de outubro, centenas de militantes fascistas do Fórum de Despertar Hindu (HJM sigla em Hindi) reuniram-se diante do SRFTI e, segundo relatos publicados pela imprensa indiana, tentaram romper o portão principal para entrar no campus. Garrafas e pedras foram lançadas em direção aos estudantes, que também reagiram de dentro do instituto.
A manifestação havia sido anunciada como resposta aos acontecimentos de 27 de setembro. A União Estudantil advertira previamente as autoridades de que, após as agressões da semana anterior, permitir nova concentração de grupos hindutva junto ao instituto poderia colocar estudantes e professores novamente em risco.
“Queremos segurança, transparência e responsabilização — não um anúncio de normalidade enquanto os estudantes continuam com medo”, afirmou a União Estudantil antes da nova mobilização.
O novo confronto ocorreu sem que os participantes dos ataques anteriores apontados pelos estudantes tivessem sido presos. Um aluno ouvido pelo New Indian Express afirmou que a ausência de detenções dos integrantes do ABGP já provocava insegurança dentro do instituto e que a concentração seguinte agravou a situação.
RSF aponta ofensiva para controlar os campi
Para a Frente Estudantil Revolucionária, os acontecimentos do SRFTI não constituem um episódio isolado. A organização relaciona o ataque à ofensiva do BJP-RSS para ampliar sua influência sobre universidades e suprimir organizações estudantis opositoras.
“Este ataque não se limita a Jadavpur ou ao SRFTI – acontecerá em todas as instituições onde ainda sobreviva algum espaço democrático”, afirma a RSF. Segundo a organização, o objetivo é esmagar o movimento estudantil que tem crescido no país e converter os campi em espaços controlados politicamente pelas organizações alinhadas ao governo.
A denúncia recupera particularmente os acontecimentos de 19 de agosto na Universidade de Jadavpur, também em Calcutá. Naquela noite, grupos ligados à organização fascista-hindutva: Associação Nacional dos Estudantes Indianos (ABVP a sigla em Hindi) e outras organizações de direita entraram no campus depois de confrontos durante uma assembleia estudantil. Estudantes denunciaram agressões, incêndios e vandalismo em instalações universitárias; imagens e relatos apontaram grupos numerosos concentrados nas entradas da universidade.
Em declaração posterior, organizações estudantis de Jadavpur afirmaram que a ação visava atingir um dos campi onde ainda existe forte oposição organizada às políticas do governo. A RSF citou também a Universidade Jawaharlal Nehru, Jamia Millia Islamia, Universidade de Délhi, Universidade de Hyderabad, Universidade de Osmania e Universidade de Punjab como instituições atingidas por confrontos, repressão ou tentativas de intervenção de grupos ligados ao BJP-RSS.
‘Ocupar os campi’
A disputa ocorre ao mesmo tempo em que o governo de Bengala Ocidental avança com medidas sobre a administração das universidades. A RSF denuncia particularmente a legislação que amplia os poderes estatais sobre transferências de professores, por considerar que ela pode ser empregada contra docentes que apoiam organizações estudantis ou se opõem às políticas do governo.
Para a organização, existe uma combinação entre medidas institucionais e atuação de grupos hindutva. “De um lado, diferentes leis estão sendo introduzidas institucionalmente; de outro, bandos de agressores são lançados para ocupar os campi”, afirma o comunicado.
A RSF associa essa ofensiva também à Política Nacional de Educação de 2020 (NEP 2020), que critica por ampliar a privatização, restringir a representação estudantil e favorecer a chamada “safronização” – termo usado na Índia para designar a introdução sistemática da ideologia chauvinista hindi nas instituições educacionais. Em julho, durante as grandes mobilizações estudantis nacionais, a organização já defendia a revogação da NEP e denunciava a atuação combinada de aparato policial, administrações universitárias e organizações ligadas ao RSS.
A RSF afirma que SRFTI e Jadavpur se tornaram alvos precisamente porque seus estudantes continuam participando de mobilizações contra políticas governamentais e em defesa da organização política nos campi.
“A finalidade deste programa de ocupação dos campi é transformar os estudantes em marionetes e tropas de choque nas mãos das forças fascistas, eliminando as vozes contrárias ao fascismo e aos grandes monopólios nacionais e estrangeiros que o sustentam”, declara a organização.
Organização chama à resistência conjunta
Ao final, a RSF responsabiliza a administração do SRFTI por permitir a realização da atividade do ABGP sem consultar os estudantes e exige que os responsáveis pelas agressões sejam identificados e processados. A organização reivindica também assistência médica aos feridos e uma investigação sobre a entrada de grupos externos no campus.
A declaração conclama as organizações estudantis “democráticas, progressistas e antifascistas” a construírem uma ação comum. “A única saída é uma resistência de massas unificada e militante”, afirma a RSF, que também defende a formação de comitês de autodefesa nos bairros e nos campi para impedir novos ataques.
Os novos confrontos de 4 de outubro reforçaram a atualidade desse chamado: uma semana depois das primeiras agressões no SRFTI, estudantes voltaram a se concentrar atrás dos portões do instituto diante de outro grupo hindutva que tentava entrar. A sucessão de episódios também levou outras organizações estudantis indianas a convocarem atos de solidariedade a Jadavpur e ao SRFTI e a denunciarem a escalada de ataques contra universidades de Bengala Ocidental.
