Reprodução A Nova Democracia.
Na tarde desta segunda-feira (23/06), em Porto Velho (RO), estudantes da Universidade Federal de Rondônia (Unir) ocuparam a Pró-Reitoria de Cultura, Extensão e Assuntos Estudantis (Procea) após um ato realizado no espaço localizado acima do Restaurante Universitário (RU), área originalmente destinada à convivência e uso coletivo da comunidade acadêmica que hoje abriga a sede (PDI 2023) da Procea.
A ocupação contou com a participação do Diretório Central dos Estudantes (DCE), dos Centros Acadêmicos dos cursos de Inglês, Pedagogia, Geografia, de estudantes de História, Filosofia, Ciências da Computação, Artes e Letras, além da Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia (ExNEPe).
A manifestação teve início por volta das 12h30 após os estudantes se reunirem em frente ao RU. Com palavras de ordem, cartazes e instrumentos de percussão, eles seguiram em protesto a partir da sala do DCE, formando uma passeata que atraiu a atenção de outros alunos, servidores e professores ao longo do trajeto.
Por melhorias no RU e no transporte
Dentre as reivindicações dos estudantes estão melhorias urgentes no Restaurante Universitário (RU), onde a qualidade do serviço vem sendo alvo de críticas recorrentes. De acordo com os manifestantes, a precariedade nos serviços oferecidos compromete o direito básico à alimentação dentro do campus e afeta diretamente o rendimento acadêmico dos alunos que dependem diariamente do local.
O RU vem sendo palco de relatos recentes de estudantes encontrando objetos inadequados e contaminantes nos alimentos, como pregos, fio dental, porcas de parafuso, larvas, pedaços de barata, moscas e pedras. Em alguns casos, a má qualidade da comida resultou na hospitalização de alunos por infecção alimentar.
A empresa terceirizada PUPO é atualmente responsável pela gestão do restaurante, e os estudantes exigem sua saída imediata por conta da má gestão e de práticas abusivas no ambiente de trabalho. O caso que mais gerou revolta foi a demissão de uma funcionária sob acusações, segundo os manifestantes, mentirosas.
Eles relatam que a empresa alegou que a trabalhadora havia colaborado com os chamados “catracaços” – manifestações estudantis realizadas nos dias 5 e 11 de junho, onde serviram no primeiro dia mais de 200 refeições gratuitas e, no segundo, 350 – e que teria repassado informações internas para os organizadores. Para o movimento, no entanto, essas alegações são falsas e configuram perseguição política. Eles pedem a imediata readmissão da funcionária, alegando que a demissão foi arbitrária e ilegal.
O correspondente local de AND também obteve, com exclusividade, o relato de outra ex-funcionária da cozinha universitária. A trabalhadora, atualmente em processo judicial contra a empresa, afirma ter sido demitida após sofrer uma grave queimadura durante o expediente. Segundo ela, mesmo diante do ferimento, que evoluiu para um quadro de infecção, a empresa se recusou a oferecer suporte médico adequado, negou o afastamento por saúde e ainda a obrigou a continuar trabalhando em condições precárias e dolorosas.


A crise no transporte interno da universidade também está entre as pautas mais críticas. A Unir adquiriu recentemente oito vans com o objetivo de melhorar o deslocamento dos estudantes entre os diferentes campi, setores da instituição e eventos acadêmicos, incluindo o 26º Fórum Nacional de Entidades de Pedagogia (FoNEPe), o 23° Encontro Nacional da Associação Brasileira de Psicologia Social (Enabraspo), a VII Festa Camponesa, o XV Encontro Nacional de Educação Matemática (Enem), entre outros.
Falta dinheiro, menos para o “agro”
Uma das críticas mais contundentes dos manifestantes se refere ao uso controverso do orçamento da universidade. Enquanto reivindicações básicas como alimentação digna, transporte funcional e condições adequadas de permanência estudantil são sistematicamente ignoradas sob a justificativa de “falta de verba”, a instituição destinou uma quantia considerável para participar do Rondônia Rural Show – evento latifundista voltado ao setor do “agronegócio”. Segundo dados divulgados pela própria instituição, apenas em diárias foram gastos mais de R$ 85 mil (!).
“É no mínimo contraditório afirmar que não há orçamento para garantir o básico aos alunos, enquanto se destinam milhares de reais a eventos que exaltam o ‘agronegócio’ e o latifúndio. Essa é a face de um modelo que prioriza o lucro acima da vida, que expande a fronteira do ‘agronegócio’ à custa do sangue de camponeses. Não é apenas uma escolha orçamentária – é uma decisão política sobre quem merece viver com dignidade e quem será deixado à margem”, declarou um representante do DCE.
Resistir e combater pela Educação
A luta estudantil em curso na Unir não é um fato isolado, mas reflete um quadro nacional de mobilizações crescentes contra o desmonte silencioso, mas contínuo, da Educação pública. Trata-se do espelho de um projeto mais amplo de precarização, onde universidades são estranguladas financeiramente, os estudantes são alvos de negligência institucional e a permanência estudantil é tratada como um luxo, e não como um direito.
A crise das universidades é, ainda, e acima de tudo, ideológico-política. Ao negar investimento no bem-estar dos estudantes ao mesmo tempo em que financia eventos milionários voltados ao “agronegócio” (latifúndio) e ao capital financeiro (grande burguesia), o velho Estado brasileiro sinaliza quais são suas prioridades – as classes dominantes – e quem pode “esperar sentado” – as amplas massas do povo, que veem seus direitos e os serviços elementares cada vez mais pisoteados.
Contudo, as lutas de operários, camponeses e demais classes populares cresce em todo o Brasil em número e combatividade. Particularmente os estudantes do povo, dentro e fora das universidades, também resistem e combatem pelos seus direitos. As ocupações, manifestações, gritos de palavras de ordem nos corredores e cartazes nas paredes são atos que deixam claro que uma universidade viva, crítica, inclusiva e a serviço do povo não se fará por concessão ou benfeitoria dos governantes, mas pela luta dos estudantes, professores e trabalhadores da Educação.
