Ato pelo Dia de Al-Quds em Brasília conta com embaixada do Irã e Cuba e Liga Anti-Imperialista; reafirma solidariedade à resistência palestina

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Republicamos de A Nova Democracia

Um ato político-cultural em comemoração ao Dia Internacional de Al-Quds reuniu organizações populares, representantes diplomáticos, partidos políticos e veículos da imprensa democrática em Brasília, na noite da sexta-feira, 13 de março. A atividade expressou solidariedade à luta do povo palestino e denunciou a ocupação israelense da Palestina e a política imperialista do Estados Unidos no Oriente Médio.

O evento foi realizado no Auditório Marco Aurélio Garcia e contou com a condução do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e com a presença do embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil, além de representantes da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), da República Árabe Saarauí Democrática e da embaixada de Cuba. Também participaram organizações sindicais, partidos políticos e movimentos sociais, como a Liga Anti-imperialista (LAI), Partido da Causa Operária (PCO), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Comitê Anti-imperialista General Abreu e Lima e o Coletivo de Base – Honestino Guimarães (CBHG). Também estavam presentes apoiadores da luta anti-imperialista, como a jornalista Ana Prestes, neta de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário.

A abertura do ato ocorreu com apresentação musical do grupo Duo Accordi. Em seguida, foram executados o Hino Nacional Brasileiro e o Hino do Estado da Palestina, seguidos de um minuto de silêncio em homenagem ao martírio do Aiatolá Ali Khamenei, martirizado em um ataque recente contra o Irã, perpetrado pelo lacaio-mor do imperialismo ianque, o “estado” nazi-sionista terrorista de “israel”. Após a homenagem, o público entoou palavras de ordem como Viva a Revolução Islâmica!, Viva a Palestina Livre! e Viva a legítima resistência dos povos!.

Defesa da autodeterminação dos povos

Compuseram a mesa do evento diversas lideranças políticas e sociais. Sayid Tenório, Vice-Presidente do Ibraspal, recordou que o Dia Internacional de Al-Quds foi instituído em 1979  “pelo Imã Ruhollah Khomeini, após a vitória da Revolução. E esta data foi instituída para prestar solidariedade e apoio à luta do povo palestino, mas também para tornar este evento, eventos como esse, numa ação internacional, para que a causa palestina nunca deixe de estar presente nas nossas preocupações, nas nossas pautas, principalmente agora, depois de dois anos e meio com o genocídio que o povo palestino estava sofrendo na faixa de Gaza e das agressões permanentes contra os palestinos que vivem na Cisjordânia. [Que] o mundo não esqueça desta causa, que é a causa mais relevante de solidariedade e de libertação nacional, assim como é também a causa de libertação do povo do Saara Ocidental.”

Em sua intervenção, Pedro Batista, representando o Comitê Anti-imperialista General Abreu e Lima e a Internacional Antifascista – Capítulo Brasil, destacou a necessidade de continuar na luta como forma de honrar mártires da luta contra o imperialismo. “A honra destes mártires do imperialismo, do sionismo, nos dá esta tarefa. E o Dia Mundial de Al-Quds nos coloca a esta obrigação. Uma obrigação como seres humanos em defesa da vida, em defesa da dignidade humana. O que os mártires de todos os povos, especialmente os palestinos, os iranianos, os que foram assassinados na invasão da Venezuela no dia 3 de janeiro, e mártires que estão em luta em todo o mundo, nos dá esta tarefa. Nós não podemos tergiversar, nós não podemos vacilar, nós temos esta obrigação moral, com os irmãos Saarauís, que estão em guerra contra o invasor, assim como os palestinos, de seguir em frente neste combate.”

“O exemplo da dor e do martírio não deve nos fragilizar, mas nos encorajar a seguir”, afirmou, defendendo também que a luta pela libertação e soberania dos povos é tão necessária para a vida quanto “o sangue e o ar que respiramos”. 

Idalmis Brooks Beltrán, conselheira e representante da embaixada de Cuba, ressaltou a histórica solidariedade do país às lutas de libertação nacional e recordou a relação entre Fidel Castro e Yasser Arafat. Segundo ela, líderes revolucionários não morrem, porque “suas ideias permanecem vivas”, reiterando que o povo cubano continuará ao lado dos povos em resistência.

Em entrevista à correspondência local de AND, Maria José Maninha, presidenta da Associação de Solidariedade e pela autodeterminação do povo saarauí, defendeu que “a unidade de todos os povos nos levará à vitória”. Durante o evento, ela ficou responsável por ler uma carta do Ministério das Relações Exteriores do Irã alusiva ao Dia de Al-Quds. O documento denunciou os crimes cometidos por Estados Unidos e Israel contra o povo palestino, citando expulsões forçadas, bloqueios e outras violações do direito internacional.

A carta reafirmou ainda o direito dos povos à resistência e aponta como condições para uma paz justa e duradoura na região o fim imediato da ocupação ilegal da Palestina pelo “ente sionista”, o retorno de todos os refugiados palestinos espalhados pelo mundo às suas terras ancestrais e a realização de um referendo livre entre os habitantes originários da Palestina.

‘Pátria ou martírio!

Representando a República Árabe Saarauí Democrática, Ahmed Mulay Ali comparou a luta palestina à resistência do povo saarauí contra a ocupação marroquina do Saara Ocidental.

Quando a Palestina foi ocupada pelo que viria a ser o regime israelense, em 1948, a comunidade internacional permaneceu inerte, na avaliação de Mulay. Tal desfecho, afirmou, levou os palestinos a compreenderem que “somente os povos defendem os povos”.

O mesmo aconteceu no Saara Ocidental, quando a Espanha vendeu o povo saarauí ao terrível domínio do Marrocos. A luta pela liberdade de sua terra levou à fundação da Frente Polisário, movimento de libertação nacional saarauí. “Pátria ou martírio. Assim entendemos”, resumiu Mulay, explicando que os presidentes saarauí caíram como mártires em batalha – ao contrário dos líderes sionistas, que se acovardam em seus bunkers.

Mulay relembrou também que eram os palestinos quem cuidavam de Jerusalém e buscavam “tê-la aberta a todo muçulmano, cristão ou judeu que queira vir rezar”, outro motivo para que os povos lutem pelo regresso dos refugiados, “para que os palestinos tenham Al-Quds e sigam vivendo nela”. 

Em entrevista à correspondência local de AND, Mulay convidou todos a festejar o 50° Aniversário da República Saarauí. O evento será no dia 9 de abril, às 19h, no Teatro dos Bancários. “Vamos fazer uma atividade com muitas surpresas interessantes”, declarou. Com um sorriso, finalizou dizendo que “os povos amantes da justiça, amantes da democracia, e o mundo está conosco. Todos vamos vencer”.

Solidariedade é autodefesa: Movimentos denunciam ofensiva imperialista

Ao destacar a importância da solidariedade internacional, vários presentes alertaram para o avanço da ingerência política e militar do imperialismo em todo o mundo – inclusive no Brasil.

Representando a Executiva Nacional e a Secretaria de Políticas Sociais e Direitos Humanos da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Ismael César destacou iniciativas do movimento sindical para denunciar o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos contra Cuba, associando as diversas frentes da solidariedade internacionalista em uma mesma luta.

Sua fala destacou a hipocrisia do Estados Unidos, o qual investe bilhões de dólares para expandir sua influência global, ao mesmo tempo em que crescem naquele país a miséria, o desemprego e a população em situação de rua. “É inaceitável que um país que produz armas com capacidade de destruir esse planeta centenas de vezes, hoje, mais de quarenta milhões de irmãos americanos não têm a perspectiva de comer”, apontou César. “Com tantos recursos, essa seria a contribuição do Império para  a Humanidade?”, questionou.

Palestina como teste para o discurso ocidental sobre direitos humanos

Dinamara Guimarães, representando o Coletivo Borda Luta, organização de mulheres artesãs do Distrito Federal, apontou como o Dia Internacional de Al-Quds é “um exemplo de que nós podemos conviver, podemos estar sempre nos irmanando”. Nesse espírito de irmandade, ela convidou uma outra integrante do Borda Luta a relatar sua aproximação com a causa palestina por meio das redes sociais. 

Foi através da internet que ela tomou conhecimento das injustiças a que estão submetidos os palestinos. “Esse povo é meu, esse povo tem a mesma generosidade, esse povo tem a mesma graciosidade”, declarou ela, lembrando-se de como a família de seu ex-marido continuava a acolhê-la, apesar do divórcio. Sua solidariedade, desde então, brota de um sentimento de “amor aos palestinos” e à humanidade: “Perguntam se sou muçulmana. Eu respondo: não sou muçulmana, sou humana. Não é possível que qualquer ser humano não se compadeça com o que está acontecendo na Palestina”. Ela também destacou a amorosidade e solidariedade do povo iraniano.

Elianildo Nascimento, representando a Rede Nacional da Diversidade Religiosa e Laicidade (RENADIR) e a United Religions Initiative (URI), alertou para o crescente desrespeito ao direito internacional e criticou a instrumentalização da religião e o papel de alguns líderes religiosos na legitimação da opressão imperialista sobre os povos. Destacou que a criação das Nações Unidas não impediu o desastre da Nakba, sendo o começo da degeneração completa do direito internacional. A inércia perante o genocídio do povo palestino e os ataques criminosos contra o Irã são exemplos máximos de como “estamos numa situação em que o direito internacional foi jogado ao lixo”, denunciou. Expôs também a farsa do Corolário Trump, doutrina que nada mais é que uma nova roupagem da Doutrina Monroe e do Corolário Roosevelt. 

Dois vídeos sobre a ocupação israelense em Jerusalém aprofundaram a discussão sobre esse tema. Relatando a história da cidade desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, o material aponta que a Palestina se tornou um verdadeiro teste para a sinceridade do discurso internacional sobre direitos humanos.

Entre as tarefas solidárias está, além de denunciar a falácia ocidental sobre o tema dos direitos humanos, alertar para o avanço dos mecanismos contemporâneos de censura digital mobilizados pelos monopólios de tecnologia. A censura contemporânea, denuncia o material apresentado, é realizada através do poder do algoritmo nas redes sociais. “Tudo é dito, mas algumas coisas não são ouvidas. Tudo é documentado, mas o algoritmo não mostra”, afirmava um dos vídeos.

Ao longo de todas as discussões, enfatizou-se diversas vezes que a solidariedade internacional às lutas dos povos por sua libertação constitui uma forma de autodefesa para todos os trabalhadores do mundo frente ao avanço do imperialismo. Nesta luta, todos devem estar unidos. Em entrevista ao correspondente local, Sayid Tenório foi contundente em afirmar que o dia 13 de março “é também uma data em que os oprimidos confrontam os opressores”, prestando solidariedade a cada uma das guerras de libertação nacional em curso.

Na mesma toada, Ana Prestes, jornalista e neta de Luiz Carlos Prestes, destacou que os povos que hoje enfrentam o imperialismo estão na linha de frente da resistência dos povos. Segundo ela, a capacidade de resistência do Irã demonstra que, apesar de tudo, é possível enfrentar a agressividade de um império em decadência. Referindo-se ao povo iraniano, ela relembrou que o dia 13 de março significa a “dedicação de todo um povo a um povo irmão”, convidando todos a “dedicar, dia e noite, cada vez mais, para a organização da luta no Brasil”.

Em entrevista à correspondência local de AND, Ali Reza Mirjalili, adido cultural da Embaixada da República Islâmica do Irã no Brasil, falou sobre a falsa democracia do Grande Satã ianque, afirmando que “Ele tem que voltar à sua casa, tem que reconhecer os valores que eles falavam durante muitos anos”. Defendeu ainda a verdadeira democracia do povo iraniano, que grita pelas ruas “‘queremos nossa soberania”.

O adido cultural falou também do Espaço Cultural Brasil-Irã, um canal para que dois povos irmãos, o iraniano e o brasileiro, aproximem-se e conheçam a verdadeira cultura um do outro. 

O evento foi encerrado com nova apresentação musical do Duo Accordi, que interpretou a canção antifascista “Bella Ciao”.