Reprodução A Nova Democracia.
Estudantes e ativistas se reuniram na Universidade de Brasília (UnB), em 24 de setembro, para o evento “A luta anti-imperialista e o papel da juventude na revolução”, organizado pela Executiva Brasiliense de Estudantes de Pedagogia (ExBEPe). A atividade culminou na fundação do Núcleo Brasília da Liga Anti-imperialista Internacional (LAI), resultado de um trabalho desenvolvido ao longo dos últimos meses por ativistas e organizações da capital.
O evento fez parte das atividades posteriores ao 43º Encontro Nacional de Estudantes de Pedagogia (ENEPe), realizado entre os dias 20 e 24 de julho na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em São Luís, e integrou a programação oficial da 26ª Semana Universitária da UnB.
Bandeiras e cartazes ornamentavam a sala. Entre as homenagens estavam o líder comunista indiano Nambala Keshava Rao, o camarada Basavaraj, secretário-geral do Partido Comunista da Índia (Maoísta), morto em combate contra o velho Estado fascista indiano em 2025; o revolucionário Yahya Sinwar, presidente do Gabinete Político do Hamas, martirizado em 2024 no campo de batalha contra a entidade nazi-sionista “Israel”; e o professor Fausto Arruda, histórico dirigente revolucionário e fundador de AND. Além da bandeira palestina, cartazes foram espalhados pela Faculdade de Educação (FE) em homenagem à Gloriosa Guerrilha do Araguaia, à Guerra Popular na Índia e no Peru e em apoio à Revolução Agrária.
Estiveram presentes na mesa representantes da ExBEPe, do Coletivo de Base Honestino Guimarães (CBHG) e da LAI – Núcleo Brasília. Participaram ainda Ahmed Mulay, embaixador da República Árabe Saarauí Democrática (RASD) e representante da Frente Polisário, e Pedro Batista, do Movimento Brasileiro de Solidariedade com Cuba (MBSC) e da Internacional Antifascista.
Ahmed Mulay saudou a combatividade da juventude e abordou a experiência da luta pela independência do Saara Ocidental, atribuindo à juventude papel central na Revolução saarauí. Também destacou a participação das mulheres e mencionou a inauguração de uma Escola Militar para mulheres. Em sua intervenção, defendeu maior estudo da situação internacional dentro das universidades e que esse conhecimento se traduza em ação prática contra o imperialismo.
Na sequência, o representante do CBHG recuperou episódios históricos em que a juventude esteve ligada a movimentos de independência, resistência e solidariedade. Citou as lutas de independência mineira e baiana, a participação dos jovens em greves ao longo da história do País, a atuação da União Nacional dos Estudantes (UNE) em sua época combativa durante o regime militar e a presença da juventude na Guerrilha do Araguaia. Também lembrou Honestino Guimarães, que dá nome ao coletivo, destacando sua atuação revolucionária, e relacionou essas experiências às atuais lutas pela permanência estudantil, pelos restaurantes universitários e contra as privatizações.
Ao relacionar campo e universidade, o representante denunciou que pesquisas e tecnologias produzidas no meio acadêmico são apropriadas pelo latifúndio e utilizadas em benefício das grandes propriedades, em vez de servirem ao povo e ao desenvolvimento da indústria e da ciência nacionais. A intervenção também relacionou a produção brasileira de matérias-primas às relações econômicas internacionais e à dominação imperialista.
O ativista lembrou ainda Renato Nathan, oriundo do movimento estudantil e posteriormente dirigente da luta camponesa em Rondônia pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP), assassinado em 2012 durante a gestão do oportunismo. Ao final da intervenção, os presentes repetiram: “Derrubar os muros da universidade, servir ao povo no campo e na cidade!”.
Em sua intervenção, a representante da ExBEPe criticou a prática imobilista que, segundo ela, se estabeleceu no movimento estudantil e recordou que a Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia (ExNEPe) rompeu com a UNE em 2004 diante do caminho governista e imobilista assumido pela entidade.
A estudante contrapôs a mobilização e a luta concreta a uma prática restrita à representação institucional e defendeu a combatividade e a independência como princípios para a organização estudantil. Também recuperou experiências de ocupações universitárias e sustentou que os estudantes devem participar diretamente das decisões sobre os rumos das instituições de ensino.
A representante citou ainda experiências em que estudantes de Pedagogia se vincularam às lutas no campo. Segundo ela, a conscientização política não pode ser separada da luta concreta pelas reivindicações estudantis: é durante a mobilização por direitos que os estudantes podem elevar sua compreensão política e fortalecer uma organização independente e combativa.
Memória das lutas como referência para a juventude
Pedro Batista afirmou que a luta de classes está presente em diferentes espaços e relacionou a formação política das novas gerações à preservação da memória das lutas. Durante sua intervenção, mencionou uma lista de 19 amigos e militantes assassinados, entre eles João Batista e o advogado popular Gabriel Pimenta, e denunciou o apagamento dessas trajetórias como uma forma de retirar da juventude referências para as lutas do presente.
Ao citar Paulo Freire e José Martí, Batista ressaltou a importância do exemplo e da prática. Também criticou o individualismo difundido pela burguesia entre os jovens e a ideia de que apenas o presente importa, afastando a juventude da memória histórica e da mobilização coletiva para a resolução dos problemas.
Para Batista, a dominação imperialista não se restringe à economia, mas alcança também a cultura e a tecnologia. A disputa pela memória histórica e pela formação da juventude foi apresentada, assim, como parte do próprio conflito político.
O representante da LAI afirmou que a relação entre parte das organizações presentes na mesa foi construída em atividades anti-imperialistas realizadas depois do Dilúvio de Al-Aqsa. Segundo ele, embora as organizações possuam táticas e estratégias diferentes, compartilham objetivos ligados à libertação dos povos e à luta contra o imperialismo.
A intervenção questionou a ideia de que guerras, ocupações e lutas nacionais ocorridas em outras regiões sejam acontecimentos distantes da vida cotidiana dos estudantes brasileiros. O ativista citou situações enfrentadas em Samambaia, Ceilândia e no entorno de Brasília e relacionou problemas como mobilidade urbana precária, desemprego, pobreza, guerras e intervenções estrangeiras à exploração imperialista e ao agravamento da decomposição do capitalismo burocrático.
Para o representante da LAI, esses problemas, ainda que assumam formas distintas, devem ser compreendidos em conjunto como “sintomas diferentes de uma mesma doença: o imperialismo”.
No caso brasileiro, a intervenção relacionou a dominação imperialista à concentração fundiária e ao latifúndio agroexportador. O representante criticou a destinação de parte da produção aos mercados externos e contrapôs os recursos destinados anualmente ao latifúndio por meio do Plano Safra à situação da tão prometida reforma agrária. A fala também relacionou a luta dentro das universidades à luta pela terra, defendendo que pesquisas e tecnologias produzidas no meio acadêmico sirvam ao povo e façam ecoar a luta dos camponeses pobres.
Na parte final da intervenção, o representante da LAI denunciou a política contrainsurgente impulsionada pelo imperialismo ianque como uma falsa política de “segurança”. Segundo ele, o discurso de combate ao chamado “narcoterrorismo” utiliza fenômenos ligados à criminalidade organizada para justificar o aprofundamento de mecanismos repressivos.
O centro da denúncia foi a extensão desse enquadramento para forças de natureza política completamente distinta. Segundo ele, categorias formuladas sob o argumento de combate à criminalidade, passam a ser utilizadas também contra organizações insurgentes e revolucionárias. Nesse contexto, mencionou o Exército de Libertação Nacional (ELN), da Colômbia, e o Partido Comunista do Peru (PCP), denunciando a tentativa de enquadrá-los sob os mesmos rótulos de “terrorismo” e “narcoterrorismo”.
O representante argumentou que esse mecanismo de criminalização também vem sendo empregado contra outras formas de luta política e popular. Citou estudantes que ocupam universidades na Colômbia, organizações antifascistas nos Estados Unidos e movimentos de luta pela terra no Brasil. No País, mencionou ofensivas contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), povos indígenas e, principalmente, a Liga dos Camponeses Pobres, denunciando tentativas da reação de associar essas lutas à criminalidade e ao chamado “narcoterrorismo”.
As falas finais defenderam que a mobilização anti-imperialista alcance tanto as reivindicações estudantis como as lutas camponesas, os movimentos contra o racismo, as lutas das mulheres e as campanhas de solidariedade internacional.
A fundação do Núcleo Brasília da Liga Anti-imperialista Internacional foi apresentada como um passo organizativo para dar continuidade ao trabalho desenvolvido nos últimos meses e fortalecer a articulação entre os diferentes setores envolvidos nas campanhas anti-imperialistas na capital.
A conclusão da atividade vinculou a formação política da juventude à sua participação nas lutas dentro e fora da universidade. Os participantes defenderam que a universidade esteja conectada às reivindicações populares e às lutas travadas no campo e na cidade.
Antes do encerramento, os presentes entoaram: “O povo prepara a sua rebelião, se abre um novo tempo para a revolução!”.
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