‘Esmagar o patriarcado bramânico!’: Milhares de estudantes marcham contra violência sexual e repressão na Índia

Reprodução de A Nova Democracia

Milhares de estudantes têm tomado campis e ruas da Índia contra a violência sexual e em defesa da emancipação feminina, em uma sequência de mobilizações que alcançou a Universidade de Délhi (DU) e a Lovely Professional University (LPU), no Punjab. Segundo informações publicadas por O Arauto Vermelho e declarações da Plataforma de Unidade Estudantil Bhagat Singh (bsCEM, na sigla em inglês) e da Frente Estudantil Revolucionária (RSF), os protestos rechaçam tanto a violência contra as mulheres quanto as respostas baseadas em maiores vigilância, restrições e repressão policial do velho Estado fascista bramânico-hindutva indiano.

A atual onda de manifestações ganhou força após o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no parque Aastha Kunj, em Délhi, no dia 21 de setembro. A jovem relatou ter sido atacada por três homens que se apresentaram como policiais.

O caso provocou protestos de estudantes da Faculdade para mulheres Lady Shri Ram (LSR), próxima ao parque. A instituição suspendeu temporariamente as aulas presenciais e transferiu atividades para o formato remoto, enquanto centenas de estudantes realizaram marchas exigindo medidas contra a violência sexual. Em 28 de setembro, mais de 3 mil estudantes marcharam do Miranda House até a Faculdade de Artes do Campus Norte da Universidade de Délhi.

Em comunicado divulgado em 28 de setembro, a bsCEM relacionou o episódio a uma sucessão mais ampla de ataques contra mulheres. Entre os casos citados está o estupro coletivo seguido do assassinato de uma adolescente de 16 anos em Swaroop Nagar, também em Délhi, em setembro; quatro acusados foram detidos, três deles menores de idade.

Para a organização estudantil, contudo, enumerar crimes individuais não basta para explicar sua recorrência. “Isto não é um incidente isolado, mas parte integrante do patriarcado bramânico existente”, afirma o comunicado. Mais adiante, a organização afirma que “o estupro tem sido usado para ‘mostrar às mulheres o seu lugar’ desde o início da sociedade de classes”.

‘Estupradores não caem do céu’

O comunicado da bsCEM critica medidas que, após os crimes, transferem para as próprias mulheres o ônus de evitar a violência. A organização cita a restrição de acesso a parques depois do pôr do sol e o aumento de policiamento e vigilância nos campi. “Simplesmente proibir a entrada resolverá a causa fundamental deste problema? As mulheres poderão caminhar livremente e sem medo pelas ruas à noite? Não”, questiona a declaração.

A organização afirma que medidas apresentadas como proteção podem, em determinadas condições, converter-se em novas formas de controle sobre as estudantes: “Na melhor das hipóteses, são uma fachada; na pior, significam aumento da vigilância e do policiamento de nossos campi”.

É nesse ponto que o documento desloca a análise da conduta individual dos agressores para as relações sociais. Segundo a bsCEM, “o Estado age para proteger seus interesses de classe. Preservar a instituição patriarcal serve às classes exploradoras”. O comunicado relaciona a opressão feminina na Índia à cultura feudal e às hierarquias de casta e afirma que a violência sexual também tem sido empregada historicamente contra comunidades inteiras.

“Estupradores não caem do céu como monstros completamente formados; são produzidos pelo patriarcado e pela misoginia que estão por toda parte”, afirma a organização. Por isso, prossegue, “o estupro não deve ser visto meramente como crime de um indivíduo, mas como algo promovido pelas classes dominantes e sua ideologia”. Na Índia, essa misoginia assume formas particulares no patriarcado bramânico, no sistema de castas e na ideologia Hindutva, elevada a política de Estado sob os governos fascistas de Narendra Modi.

Na caracterização de organizações revolucionárias indianas, essa opressão se entrelaça ao projeto bramânico-hindutva impulsionado pelo “Partido do Povo Indiano” (Bharatiya Janata Party, BJP), de Modi, que busca remodelar a Índia como uma Hindu Rashtra – uma “nação hindu” – sob hegemonia das castas superiores. O projeto preserva hierarquias do sistema de castas que relegam dalits e adivasis às posições mais oprimidas e associa às mulheres o papel de guardiãs da “pureza”, da família e da honra comunitária.

Sob o fascista Modi, essa ideologia chauvinista hindu ganhou alcance estatal, ao mesmo tempo em que cresceram denúncias de discriminação contra minorias religiosas, perseguição de opositores e violência baseada em castas. A chamada “nova Índia” do Hindutva combina a manutenção dessas relações feudais com a subordinação aos monopólios e a repressão às massas que resistem.

Revolta estudantil alcança universidade no Punjab

Outra frente das mobilizações se abriu na Lovely Professional University, em Phagwara, no Punjab. No fim de setembro, estudantes iniciaram protestos depois que circulou a denúncia de que uma aluna teria sido estuprada dentro de um alojamento feminino.

A acusação segue sob investigação. A universidade nega que o estupro tenha ocorrido, enquanto a polícia registrou um boletim por estupro contra uma pessoa não identificada e criou uma equipe especial de investigação. Uma estudante declarou à polícia que a administração teria tentado ocultar o caso.

A RSF, em declaração publicada no dia 29, reproduziu relatos de estudantes segundo os quais a jovem teria procurado uma responsável pelo alojamento e sofrido pressão para silenciar.

A indignação levou estudantes a bloquear durante horas a rodovia nacional NH-44, que liga Délhi a Amritsar. Houve confrontos com a polícia, incêndios e destruição de patrimônio no campus. A universidade suspendeu as aulas por dez dias e adiou provas, enquanto o acesso à internet na região chegou a ser interrompido por 24 horas.

A Frente Estudantil Revolucionária criticou a resposta repressiva e declarou solidariedade aos manifestantes. O comunicado conclama estudantes e organizações a “não simplesmente esperar justiça do Estado, mas construir uma resistência de massas unida e combativa”.

Entre as reivindicações apresentadas pela RSF estão a investigação do caso denunciado, responsabilização de envolvidos em agressões contra manifestantes, fim da repressão policial e participação efetiva dos estudantes na definição das medidas de segurança dos campi, em oposição à ampliação de toques de recolher, vigilância e policiamento.

‘As mulheres sustentam metade do céu’

No Campus Norte da Universidade de Délhi, a bsCEM participou das mobilizações sob a consigna “As mulheres sustentam metade do céu”. Em 30 de setembro, a organização informou ter integrado a marcha noturna entre Vijaynagar e a Faculdade de Artes, junto a centenas de estudantes e outras organizações democráticas e populares.

Em sua convocação, a bsCEM afirmou: “As mulheres devem participar ativamente da luta para esmagar o patriarcado bramânico e combater a exploração e a opressão. Juntos, lutamos por uma nova sociedade democrática baseada na igualdade e na liberdade.”

A organização também declarou que a “raiva e frustração dos milhares” mobilizados devem ser transformadas em força para modificar a sociedade e sustentou que a cultura feudal, somada às influências imperialistas, não pode ser eliminada apenas por leis mais duras ou pela troca de governos.

O comunicado de 28 de setembro formula a mesma questão de modo mais explícito: “Sem uma mudança nas relações sociais que sustentam a opressão e a subjugação das mulheres, elas não podem alcançar verdadeira liberdade e democracia”. E conclui: “As mulheres sustentam metade do céu e lutarão por ele.”

Para 1º de outubro, a bsCEM também anunciou uma atividade de estudo no Campus Norte da Universidade de Délhi em torno do texto “Mudanças nas leis sobre estupro: até que ponto ajudarão?”, da dirigente comunista indiana Anuradha Ghandy. A organização apresentou a leitura como parte das mobilizações estudantis contra a violência sexual e como tentativa de discutir “onde reside a solução” para o problema.

Anuradha Ghandy: a emancipação da mulher e a revolução proletária

A referência a Anuradha Ghandy aparece tanto na declaração da bsCEM quanto na manifestação de solidariedade da RSF. Ambas reproduzem uma passagem em que a dirigente critica a representação das mulheres como essencialmente pacíficas, por considerar que essa concepção as afasta da participação ativa na luta por sua própria emancipação.

O debate desenvolvido por Anuradha ultrapassou especificamente a questão da violência sexual. Em “Sobre as Correntes Filosóficas dentro do Movimento Feminista”, de 2006, ela analisou criticamente o liberalismo, o feminismo radical, o “feminismo socialista”, o ecofeminismo e outras correntes. Ao tratar do movimento liberal de mulheres na Índia, destacou que suas organizações “não questionavam a estrutura social” e que “sua ênfase era garantir os direitos das mulheres através da lei”.

Isso não significava desprezar conquistas legais. Anuradha reconhecia a importância de mudanças concretas produzidas pela luta das mulheres, mas sustentava que a opressão feminina não poderia ser compreendida separadamente da estrutura econômica, da sociedade de classes, das sobrevivências feudais e da dominação patriarcal. Em sua análise do movimento revolucionário indiano, situou a luta contra o patriarcado como parte integrante da Revolução Democrática de novo tipo.

O Movimento Feminino Popular (MFP), no Brasil, apresenta essa elaboração como uma crítica às correntes feministas “que tentam encontrar dentro do próprio capitalismo a solução para os problemas da mulher”.Em sua apresentação programática, o MFP sustenta, por sua vez, que a emancipação feminina “só será plenamente possível com a emancipação de toda a classe operária”.

A própria experiência revolucionária indiana ocupa lugar central nessa concepção. Em março de 2026, o MFP recuperou uma formulação de Anuradha segundo a qual existe uma ligação entre a condição semifeudal e semicolonial da sociedade indiana e a opressão feminina, e apontou a participação crescente das mulheres nas áreas sob influência e atuação do movimento revolucionário.

É nessa toada que a bsCEM encerra sua declaração sobre os protestos atuais: “Nossa luta para democratizar nossos campi caminhará lado a lado com nossa luta por uma sociedade democrática”. Para a organização, as mobilizações contra estupros e assédios não constituem uma questão separada das demais contradições sociais, mas parte da disputa mais ampla pela emancipação das mulheres e das demais massas exploradas e oprimidas.

MEPR Autor

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