Reprodução de A Nova Democracia
A rebelião estudantil que já alcançou mais de 1,2 mil liceus (escolas de ensino médio) franceses entrou, neste dia 5 de outubro, em sua terceira semana. Segundo o Ministério da Educação, 413 estabelecimentos ainda eram alvo de ações ou perturbações durante o dia, apesar do fechamento total ou parcial determinado pelo governo em centenas de escolas; no ensino superior, entre 30 e 40 campi estavam bloqueados ou fechados. A repressão já soma mais de 5 mil detenções, cerca de 85% delas de menores de idade.
O caso mais grave registrado nesta segunda ocorreu em Lens, no norte do país. Um estudante de 15 anos teve a mão arrancada após a explosão de uma granada de dispersão utilizada pela polícia durante a mobilização junto ao liceu Auguste-Béhal. A investigação entregue à Inspetoria-Geral da Polícia Nacional (IGPN) ainda apura as circunstâncias exatas — inclusive se o adolescente recolheu a granada ou se foi diretamente atingido por ela. Entre 200 e 250 estudantes estavam mobilizados no local.
A mobilização começou com maior força nos bairros operários e pobres da região parisiense, contra a falta de professores, salas superlotadas e escolas deterioradas, mas rapidamente ganhou dimensão nacional. Em 1º de outubro, todos os liceus de Saint-Denis, três estabelecimentos de Aubervilliers e o liceu Maurice Utrillo, em Stains, estavam bloqueados; as universidades de Saint-Denis e Villetaneuse também aderiram. Cerca de 700 secundaristas, universitários e trabalhadores marcharam entre Saint-Denis e Aubervilliers, enfrentando sucessivas tentativas de dispersão policial.
Em Aubervilliers, estudantes de Le Corbusier e Henri Wallon chegaram a cercar o comissariado para exigir a libertação de colegas detidos naquela manhã. A marcha seguiu depois para diferentes liceus bloqueados, enquanto estudantes enfrentavam gás lacrimogêneo e cargas policiais. Em frente ao Suger, um secundarista afirmou ao megafone: “Não vamos parar até que nossas reivindicações sejam ouvidas!”.
Neste dia 5 de outubro, os bloqueios e enfrentamentos prosseguiram em diferentes cidades. Em Lille, o liceu Faidherbe voltou a ser bloqueado, com barricadas e objetos incendiados na via antes da intervenção policial; em Toulouse, a polícia lançou gás lacrimogêneo diante do liceu Raymond-Naves, enquanto 18 liceus permaneciam fechados na área acadêmica da cidade.
A própria geografia da repressão expõe o conteúdo de classe da crise. A Causa do Povo acompanha particularmente liceus profissionais, estabelecimentos REP e REP+ e escolas das periferias de Seine-Saint-Denis e Val-d’Oise, onde a falta de pessoal e de estrutura se combina com maior presença da repressão policial. Segundo o jornal francês, os estudantes desses bairros passaram com maior frequência do simples fechamento dos portões para barricadas, fogueiras e confrontos quando a polícia tentou desmontar os bloqueios.
Em Saint-Ouen-l’Aumône, um estudante de apenas 14 anos teve dentes quebrados e a mandíbula gravemente ferida depois de ser atingido no rosto durante a repressão diante do liceu profissional Château d’Épluches. Em Tours, diante do liceu Balzac, outro estudante sofreu grave ferimento no olho durante uma operação policial.
Em Saint-Denis, vídeos mostram policiais utilizando gás lacrimogêneo contra estudantes diante do liceu Suger. Outros registros difundidos ao longo da semana mostram adolescentes sendo derrubados e arrastados pelo chão durante as intervenções. O aumento das denúncias levou à abertura de investigações internas sobre alguns episódios de extrema violência policial.
Segundo A Causa do Povo, enquanto um adolescente de um liceu profissional de uma zona popular era gravemente atingido pela polícia em Saint-Ouen-l’Aumône, agentes destacados diante do liceu Simone Weil, numa área mais abastada de Paris, chegaram a participar de uma disputa de flexões com estudantes.
No liceu profissional ENNA, em Saint-Denis, os próprios estudantes resumiram sua situação numa faixa dirigida às autoridades: “Não somos cães!”. Entre as reivindicações surgidas ali estavam mais funcionários, material para aulas práticas, recursos, assistência social e melhores condições dentro da escola.
A resposta do governo passou rapidamente da tentativa de desqualificar os bloqueios para uma operação de grande escala. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu convocou uma célula de crise; o Ministério do Interior enviou unidades especializadas de repressão e, no dia 2, cerca de 400 liceus foram fechados administrativamente. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, reuniu procuradores e cobrou uma “resposta penal firme”.
Ao mesmo tempo, integrantes do governo e serviços de inteligência passaram a atribuir a explosão das mobilizações à “instrumentalização” por organizações políticas. Uma nota de inteligência citada pelos monopólios de imprensa franceses mencionou estruturas estudantis e grupos da chamada “extrema esquerda”.
Com tal campanha de criminalização, o Estado imperialista francês visa ocultar os fatos objetivos que deram origem à mobilização nos bairros populares, como ausência de professores, infraestrutura deteriorada e desigualdade de investimentos entre escolas; em Seine-Saint-Denis, estudantes descrevem uma situação em que o local de moradia condiciona diretamente as condições de estudo, a saber, a realidade completamente distinta entre as escolas das zonas abastadas e aquelas frequentadas pelas massas populares.
Enquanto as escolas acumulam essas carências, o orçamento do imperialismo francês segue outra prioridade. O projeto para 2027 prevê mais 6,4 bilhões de euros para o rearmamento militar. Na Educação Nacional, embora haja aumento nominal de recursos, o governo prevê eliminar 1.588 postos de professores titulares, e o crescimento do orçamento educacional fica abaixo da inflação.
Organizações revolucionárias estão presentes na mobilização desde seus primeiros dias. Entre elas está a Juventude Comunista da França (Jeunesse Communiste, JC), que participou de ações em estabelecimentos como o liceu Utrillo, em Stains, e difundiu a palavra de ordem “Temos razão de nos revoltar!”.
A mobilização em Utrillo já vinha ocorrendo antes da expansão nacional. Ali, estudantes exigiam providências contra um professor acusado por alunos e colegas de comportamentos racistas e abuso sexual, enquanto a JC participava da agitação no estabelecimento. Segundo A Causa do Povo, militantes revolucionários também estiveram envolvidos nos primeiros bloqueios de Seine-Saint-Denis; três ativistas foram detidos já em 23 de setembro. A prisão de jovens comunistas também apareceu na tentativa governamental de explicar o movimento como obra de “agitadores externos”.
Nesta segunda-feira (5), 413 liceus continuavam atingidos por ações ou perturbações, contra 564 na sexta-feira, enquanto de 30 a 40 unidades do ensino superior permaneciam bloqueadas ou fechadas. O recuo no número diário de estabelecimentos não significou o encerramento da mobilização: de 400 a 500 liceus tiveram as aulas total ou parcialmente suspensas por determinação das autoridades, e ações ocorreram novamente em Lille, Toulouse, Paris e outras cidades.
A próxima jornada nacional está marcada para 6 de outubro. Depois de saírem sem “medidas concretas” da reunião com o Ministério da Educação, as organizações secundaristas mantiveram a convocação, à qual aderiram a principal federação de pais de alunos e seis dos sete sindicatos representativos dos trabalhadores da educação. Em Saint-Denis, os estudantes já haviam resumido sua disposição diante da polícia: “Não vamos parar até que nossas reivindicações sejam ouvidas!”.
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