Reprodução de A Nova Democrracia
Imagem em destaque: Incêndio que atingiu a Suprema Corte da Albânia, em Tirana, durante a rebelião popular de 17 de outubro de 2026. (Foto: Reprodução)
A rebelião popular contra a carestia e a precariedade da educação na Albânia obrigou a Suprema Corte a suspender suas audiências, salvo as urgentes, após o incêndio que atingiu o tribunal em 17 de outubro, quando os manifestantes também incendiaram uma agência bancária e a entrada dos escritórios do banco central do país. A decisão foi anunciada nesta terça-feira, 20, em comunicado reproduzido pelo monopólio de imprensa albanês Shqiptarja. No oitavo dia da revolta estudantil, manifestantes voltaram a enfrentar as forças de repressão em Tirana, a capital, enquanto professores universitários marcharam pela renúncia do primeiro-ministro Edi Rama.
Os jovens se concentraram novamente diante do Ministério da Educação, depois de se juntarem aos docentes nas proximidades da sede do governo. À tarde, enfrentaram as tropas de repressão com pedras e fogos de artifício, sob ataques de gás lacrimogêneo e canhões d’água. O governo recobriu as janelas dos ministérios da Educação e das Finanças com painéis metálicos para proteger os edifícios que se tornaram alvos da revolta.
O descrédito das instituições já aparecia antes da atual rebelião. Na pesquisa anual WeBalkans de 2026, financiada pela União Europeia e realizada com 1.040 moradores de 15 anos ou mais entre o fim de janeiro e o início de março, 77% declararam tender a não confiar nos partidos políticos oficiais e 67,5%, no sistema eleitoral. A desconfiança atingia 60,8% em relação ao governo, 59,9% ao Parlamento e 53,4% ao Judiciário.
No mesmo levantamento, a corrupção foi apontada por 52,1% entre os problemas mais urgentes do país, seguida pelos baixos salários e pensões (44,5%) e pelo custo de vida e inflação (38,4%).
Uma pesquisa do Instituto Republicano Internacional (IRI) registrou queda de nove pontos percentuais na satisfação com o desenvolvimento democrático do país: de 49% em 2024 para 40% em 2026. O levantamento ouviu 1.200 adultos entre 9 de abril e 3 de maio deste ano.
A marcha dos docentes começou pela manhã, diante da Universidade Politécnica de Tirana. Convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores das Universidades da Albânia (SPUSH), a mobilização denunciou a violência policial contra os estudantes e exigiu a saída de Rama. Uma petição em apoio às reivindicações estudantis já reunia mais de mil assinaturas de acadêmicos, conforme a cobertura do Balkanweb.
A participação dos professores amplia a mobilização que começou entre secundaristas e universitários em 13 de outubro, contra a carestia, as condições precárias das universidades e moradias estudantis e a falta de trabalho. A exigência de renúncia de Rama une essas reivindicações à revolta contra a corrupção e a entrega do litoral albanês a empreendimentos de luxo.
Os protestos também mobilizam redes de socorro e solidariedade. Clínicas, farmácias e moradores oferecem materiais, alimentos e atendimento gratuito aos feridos. O enfermeiro Elson Jaçaj abriu sua clínica aos manifestantes e organizou uma equipe com estudantes de medicina e outros profissionais para prestar primeiros socorros nas ruas, segundo reportagem do Le Monde de 18 de outubro.
Na segunda-feira, 19, a juventude voltou a marchar a partir do Ministério da Educação e enfrentou operações policiais destinadas a impedir o reagrupamento dos manifestantes. O Tribunal de Apelação foi atacado. Nas proximidades da sede do primeiro-ministro, o governo posicionou as forças especiais policiais RENEA, enquanto novos enfrentamentos atingiam a região do Ministério do Interior.
O incêndio na Suprema Corte, ocorrido no sábado, 17, atingiu o primeiro andar e danificou a infraestrutura e processos judiciais. A suspensão das audiências permanecerá até a verificação dos danos. Os manifestantes também incendiaram uma agência bancária e a entrada dos escritórios do Banco da Albânia, o banco central do país.
A persistência dos enfrentamentos prolonga a jornada que já alcança várias noites consecutivas, conforme o balanço de O Arauto Vermelho. A revolta ultrapassou o Ministério da Educação e atingiu diferentes órgãos do velho Estado, bancos e uma delegacia, apesar das prisões e do emprego de balas de borracha.
Em 19 de outubro, Rama anunciou um bônus de 2,5 mil euros para cada policial empregado na linha de frente da repressão, além de prometer aumento salarial a partir de janeiro de 2027. Aos acusados de participar dos enfrentamentos, reservou ameaças de cobrança dos danos, perda de bolsas e exclusão do ensino gratuito. Também ameaçou impedir que professores que acusou de incentivar ataques a escolas voltem a trabalhar para o Estado.
O anúncio, registrado pela Deutsche Welle, expõe a resposta do governo às reivindicações por educação e condições de vida: dinheiro para os repressores e ameaça de retirar dos jovens o acesso ao ensino. Rama ainda atribuiu a revolta a um suposto financiamento do Irã e da Rússia.
Até o dia 19, o Ministério da Saúde contabilizava 310 feridos desde o início da mobilização estudantil: 191 policiais, 88 manifestantes e 31 transeuntes. A dimensão dos enfrentamentos supera o balanço anterior divulgado no fim de semana. As operações também atingem pessoas sem relação com os protestos: à BBC, o advogado Gentian Sejrani, que presta assistência a mais de cem detidos, relatou prisões sem apresentação de provas.
Os enfrentamentos de outubro sucedem meses de protestos pacíficos, iniciados em 31 de maio. “Protestamos pacificamente por 137 dias, em vão. Nada mudará se não usarmos a violência”, afirmou Assia, de 18 anos, ao Le Monde em 17 de outubro. Na mesma reportagem, Besi, de 34 anos, preso quatro vezes desde o início do movimento, acrescentou: “Uma revolução não é pacífica”.
A exigência de renúncia de Rama também aparece na fala de Enea, de 19 anos, ouvido pela Reuters em 16 de outubro. Questionado sobre sua mensagem ao primeiro-ministro, respondeu: “Que renuncie o mais rápido possível, antes que tudo pegue fogo”.
O analista Afrim Krasniqi afirmou ao Guardian em 15 de outubro: “Querem viver num país melhor e não têm medo de usar a violência”.
O estudante de Direito Arben, nome fictício, relatou ao Le Monde: “Trabalhei por dois anos como assessor jurídico do governo por 600 euros por mês, enquanto o aluguel custa 800 euros”.
A rebelião se soma às mobilizações explosivas na França, Itália, Espanha e Portugal. A carestia, a destruição dos serviços públicos e o descrédito dos governantes alimentam a explosividade das massas, em mais uma expressão da ebulição da situação revolucionária na Europa, que se desenvolve de maneira desigual.
Em Tirana, a mestranda Sidorela Vatnikaj, de 27 anos, resumiu à BBC a desilusão que leva a juventude às ruas: “Vi a geração dos meus pais trabalhar a vida inteira, sonhando com uma sociedade democrática onde pudesse viver com dignidade. Isso nunca aconteceu”.
Nunca o sistema político do País atingiu um nível de desmoralização tamanha e desbragada corrupção…
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