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Alvorada do Povo: Os rumos da greve da USP após a vitoriosa ocupação da REItoria

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Nota Inicial: Reprodução Alvorada do Povo.

A ocupação da reitoria no dia 07 de maio foi um passo muito importante do movimento estudantil na greve da USP. Após importantes batalhas e enfrentamentos com a burocracia universitária, nas assembleias ocorridas nas semanas do dia 03 de maio, a posição em defesa da ocupação da reitoria foi ganhando cada vez mais força com importantes propostas aprovadas nesse sentido. A cada dia de greve ficou cada vez mais claro que era fundamental elevar a combatividade da luta dos estudantes frente à posição reacionária da REItoria em se recusar a negociar com os estudantes, por meio da tática mais avançada que o movimento estudantil tem desenvolvido em nosso País em décadas: a greve de ocupação. Não era uma tarefa fácil, sabemos que, frente às importantes lutas históricas no movimento na USP, cada vez mais a REItoria foi criando barreiras para impedir o acesso dos estudantes ao prédio. Mas qual luta encontrou caminho fácil ao longo da história? Cada direito conquistado pelo nosso povo em geral, e pelos estudantes em particular, foi em meio a difíceis lutas. Tínhamos plena convicção de que com organização, decisão e combatividade era possível ocupar o prédio da reitoria, para colocar abaixo todas as barreiras anti-povo ali instaladas, e transformar esse espaço em mais uma importante trincheira da luta. Era fundamental colocar a REItoria contra a parede e o movimento estudantil em condição superior para negociar as justas reivindicações da greve, assim como impulsionar a participação de mais estudantes nas mobilizações. Por isso saudamos efusivamente todas e entidades e estudantes que se lançaram ativamente para cumprir esse grande feito!

E que grande vitória a ocupação da REItoria! A repressão não foi capaz de deter a justa revolta dos estudantes, que rapidamente derrubaram as portas que haviam sido fechadas. O movimento estudantil entrou no prédio e se manteve firme frente à primeira tentativa de desocupação. Rapidamente, os abutres do monopólio de imprensa colocaram suas garras para fora, despejando todo o chorume reacionário contra a justa ocupação, chamando de “baderna” “vandalismo”, os mesmos argumentos batidos usados historicamente contra o povo em luta.

Em 2015/2016 quando os estudantes secundaristas ocuparam escolas por todo o estado de São Paulo para derrotar o grave ataque ao ensino público do governo Alckmin da época chamado falsamente de “reorganização escolar”, os ataques foram o mesmo. Após sucessivos ataques violentos da Polícia Militar de São Paulo contra os secundaristas em luta, ataque dia e noite do governador e do monopólio de imprensa, provocações de todo tipo da extrema-direita, MBL e seus asseclas, vendo que o apoio dos estudantes e amplos setores da sociedade com as ocupações só aumentava, o monopólio de imprensa teve que correr para colocar a máscara e dizer “a luta é justa, mas os métodos foram muito radicais” e esse chororô todo.

Essas acusações sempre vão existir contra os que lutam, por isso nós, que estamos em luta, não podemos cair na armadilha da querer separar o que é “luta pacífica” ou “luta violenta”, quando, diante de tanto ataque e violência direta e indireta por parte das classes dominantes com o seu velho Estado contra o povo, toda forma de revolta do povo em luta é justa! Duvidar é perder, não podemos abrir um palmo sequer para esse tipo de ataque rasteiro contra aqueles que lutam.

Ato seguinte da ocupação da REItoria, veio o posicionamento vergonhoso do REItor Aluísio, atacando de forma rasteira os estudantes em luta, falando que “não ia negociar de jeito nenhum”, o que foi acompanhado de notas vergonhosas de poucas entidades da USP e alguns professores. Diante de tantos ataques privatistas contra o ensino público, especialmente as universidades públicas, que é o sonho de privatização da extrema-direita, essas entidades e professores se colocarem contra a justa luta dos estudantes é um verdadeiro contrassenso. Prédio caindo aos pedaços, verme no bandejão, auxílio permanência sem reajuste, falta de professores e funcionários, e assim por diante, com tal posição, esses senhores tomam parte do caminho reacionário privatista que atenta contra os pilares da Universidade Pública do nosso País: A gratuidade, democracia e autonomia universitária.

Por outro lado, o amplo apoio que a ocupação da REItoria teve entre os estudantes e diferentes setores da sociedade colocou a greve em outro patamar com uma repercussão nacional. Demonstra não somente sua justeza mais um fato claro para qualquer luta: quanto mais contundente são os meios empregados na luta, maior será seu apoio e desenvolvimento. A primeira ocupação do século XXI que derrubou um reitor foi a ocupação da UNIR – Universidade Federal de Rondônia (incluindo sua reitoria) em 2011. Na época, a reação fez de tudo para tentar derrotar a ocupação, o governo chegou a enviar grandes contingentes da polícia federal para intimidar e ameaçar os estudantes, muitos inclusive foram arbitrariamente chamados para prestar depoimento ou foram detidos. Mesmo assim, os estudantes se mantiveram firmes e intransigentes na luta pelos seus direitos e pela derrubada do reitor, o que resultou num cada vez maior apoio da população, furando o cerco que a imprensa lixo e a repressão tentaram montar contra os estudantes em luta.

Existe um bombardeio midiático que coloca a USP e todas Universidades Públicas como se fossem um privilégio, logo quem estuda nelas não tem o direito de exigir nada, pois, estão estudando de “graça”. Sabemos o que está por trás disso: buscar reduzir ao máximo o acesso à Universidade Pública, inicialmente cobrando mensalidade de alguns setores e depois privatizando de forma completa. Essa é a política do Banco Mundial e do FMI contra o ensino público em nosso País. A Universidade Pública não é um privilégio, é um direito! Os trabalhadores da cidade e do campo suam sangue dia e noite, em sua maioria, nas condições de emprego mais precárias, e tem direito a exigir tudo, inclusive uma Universidade Pública e gratuita com acesso a todos. Sabemos que não é um problema de verba, e sim para o que os recursos são destinados. Os bilhões de reais transferidos pelo velho Estado para os latifundiários, grande burgueses e os imperialistas, principalmente ianques, são esses mesmos recursos sugados dos serviços básicos e essenciais para o nosso povo, como saúde e educação.

Infelizmente, a iniciativa da maioria dos estudantes de expulsar a Polícia do prédio nas primeiras horas e tomar toda a REItoria da ocupação foi restringida por alguns integrantes do Comando de Greve. Certamente, se essa posição tivesse vingado, teríamos garantido maiores condições para resistir a qualquer ofensiva por parte da reação. Historicamente, em nosso País, particularmente nos últimos vinte anos, as grandes conquistas do movimento estudantil foram por meio das greves de ocupação, e, em praticamente todas elas, a polícia agiu para tentar desmobilizá-la no início ou impedir o controle total do espaço ocupado. Diante dessas experiências, o movimento popular combativo e organizado defende a posição dos estudantes buscarem manter a iniciativa inicial de tomar o espaço ocupado. Contudo, não foi possível aplicar essa máxima, o que não anula a grande vitória da ocupação realizada, mas é importante avançarmos a compreensão sobre os aspectos táticos de nossa luta, para sairmos adiante nas próximas batalhas.

Gostaríamos de chamar atenção para um aspecto importante que diz respeito ao funcionamento da ocupação, que é a necessidade de estabelecimento de um Comando da Ocupação já na primeira assembleia, para coordenar o funcionamento das comissões. Sabemos que as comissões são cruciais para o bom desenvolvimento de qualquer ocupação estudantil, sendo uma das principais a comissão de segurança,pois, além da necessidade de organizar a defesa frente a repressão, devemos também repelir os sucessivos ataques e provocações por parte da extrema-direita, que buscam sempre da forma mais baixa “desmoralizar” os estudantes perante a opinião pública. De início uma parte das comissões estava dispersa, aos poucos foram ganhando uma vida mais ativa. Não podemos deixar de lembrar que além da presença ostensiva da Polícia Militar durante toda a ocupação, para tentar abalar a moral dos estudantes a REItoria desligou a água e energia elétrica, mas o efeito foi o contrário do que desejado pelo REItor: o que se viu foi muito entusiasmo e muita criatividade por parte dos estudantes e apoiadores para solucionar todo tipo de problema que surgia. Diferente da REItoria, que largou a Universidade às traças, durante todo o período de ocupação, os estudantes zelaram pelo espaço e funcionamento mesmo em condições difíceis diante das restrições impostas pela REItoria.

A “reintegração de posse” (não podemos dar qualquer verniz de legalidade frente a essa ação criminosa da PM de São Paulo) ocorreu na madrugada de sábado para domingo da forma mais covarde possível. A PM chegou quebrando tudo, independentemente de ser “patrimônio público” ou materiais levados pelos estudantes. Os policiais lançaram bombas e montaram “corredor polonês” para atacar os estudantes durante a retirada. Vários estudantes foram feridos, alguns com lesões graves, e quatro estudantes, detidos de forma arbitrária. Depois a polícia vai mostrar os materiais que eles destruíram durante o ataque como se tivesse sido destruído pelos estudantes e colocar culpa na ocupação, mas os vídeos estão aí que desmentem qualquer possibilidade de se utilizarem esse ardil. Essa é a Polícia Militar em sua essência! Essa instituição podre que desde sua fundação é pautada por sucessivos assassinatos e ataques principalmente contra os pretos e pobres, tendo ódio a tudo que se remeta ao povo. Não é “despreparada”, apenas cumpre seu papel de cão de guarda dos interesses das classes dominantes. São muito corajosos contra o povo desarmado e desorganizado, mas quando enfrentam a massa organizada e decidida a resistir, ficam choramingando pelos cantos, como no chororô diário da Polícia Militar de Rondônia nas suas tentativas frustradas de reintegração de posse contra Áreas Revolucionárias no campo dirigidas pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP).

Como não existe limite para a mentira e a canalhice por parte da atual REItoria e do governo do bolsonarista Tarcísio de Freitas, lambe-botas do genocida Trump, soltou uma nota condenando a violência policial dizendo que não foi avisado antes. Conversa para boi dormir! É claro que sabiam e autorizaram a ação. Diante da repercussão negativa da ação policial, a REItoria precisou emitir esse comunicado para tentar aliviar a situação. Aliás no mesmo comunicado informam que vão abrir novamente o “diálogo” com os estudantes. Diante disso, temos que olhar além das aparências: está claro que diante do duro golpe sofrido com a ocupação da REItoria, o REItor se viu em desvantagem e contra a parede. Seria questão de dias a reabertura da mesa de negociação. Contudo, para não dar o braço a torcer e não sair completamente desmoralizado diante da vitória dos estudantes, combinou o jogo com Tarcísio de Freitas para que a PM atacasse da forma mais covarde possível e depois soltaria uma nota se fazendo desentendido e assim reabria a mesa de negociação “em busca da paz”, para não parecer que teve que voltar atrás de sua decisão de não negociar diante da combatividade dos estudantes.

O tiro saiu pela culatra. A ação desastrosa da PM só ampliou o apoio e solidariedade a ocupação, assim como o número de estudantes dispostos a elevar a combatividade para levar a greve adiante. Ou seja, o REItor saiu duas vezes derrotado. A primeira derrota, diante da poderosa ocupação da REItoria, a segunda, quando, tentando resolver a situação, acabou de afundar os pés nas lamas. Em seu primeiro ano de mandato já está complemente desmoralizado. Importante vitória dos estudantes! A reabertura da mesa de negociação, caso seja efetivada (sabemos que a palavra da REItoria não vale nada), se dá em situação completamente favorável para os estudantes e devemos aproveitar o momento para sermos mais ofensivos em nossas reivindicações.

Agora é imprescindível que as entidades e estudantes em luta, ampliem a mobilização dentro de cada campus e em cada curso, eleve o número de atividades dentro da greve, principalmente, as mais combativas e coloque na ordem do dia novas ocupações. Será necessário fazer um balanço justo e correto da experiência da própria greve, que foi pautada pela tática de ocupação desde o primeiro dia, e tem sido principalmente vitoriosa. Exemplos não faltam! As diretorias específicas de cada campus, ao se sujeitarem por completo a essa REItoria, somente colocam para os estudantes que, em todos os cursos, teremos que ampliar a luta combativa para desfazer qualquer conversa fiada de impossibilidade de atender às reivindicações dos estudantes. Se a forma de negociar da REItoria e burocracia universitária é enviar a PM de forma violenta contra os estudantes, responderemos com nossa decisão, firmeza, organização e combatividade, diferente deles que, nessas ações desastrosas, jogam no lixo toda a história e nome da instituição. As nossas ações são para que a USP esteja cada vez mais a serviço do povo.

Aluísio Augusto e Tarcísio de Freitas vocês acharam mesmo que a desocupação desastrosa da REItoria deteria a nossa luta? Chegaram tarde! Os estudantes saíram da ocupação mais fortes e mais preparados para levar a luta adiante. Nesse momento que se coloca a necessidade de elevação da luta dos estudantes independentes, que estiveram na linha de frente das principais lutas da greve desde o seu início cabe um esclarecimento necessário: independência não significa ausência de organização. Pelo contrário! O direito de organização no movimento estudantil foi garantido com muita luta, suor e sangue, principalmente, durante o regime militar fascista. Independência é não colocar os estudantes a reboque de quaisquer interesses eleitoreiros, de governos e da burocracia universitária. Somente com independência e combatividade os estudantes terão condições de levar sua luta até a vitória! Fazemos um chamado para as entidades, estudantes, funcionários e apoiadoras (es) persistirem na luta até que as nossas reivindicações sejam plenamente atendidas.

IR AO COMBATE SEM TEMER: OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER!

OCUPAR E RESISTIR ATÉ A GREVE TRIUNFAR!

FORA PM DA USP!

VIVA A VITORIOSA OCUPAÇÃO DA REITORIA DA USP!

10 de maio de 2026
Alvorada do Povo (AP)