Nota inicial: Repercutimos a seguir carta de lutador popular, de rompimento com uma das muitas vertentes do oportunismo em nosso País, que chegou até a nossa organização pelos meios eletrônicos. Como alertamos desde o início, essa “novíssima” organização já nasceu completamente afundada no pântano. Atendemos o chamado colocado ao final da carta: “Que esta carta circule entre militantes honestos, que carregam consigo fervor revolucionário e vontade real pela luta, como registro de uma ruptura consciente, dura e necessária; E como alerta sobre o que ocorre quando a teoria se separa da prática e a revolução se transforma em identidade vazia.”.
M. – 09/02/2026
“(…) assim como não se julga a um indivíduo de acordo ao que este crê ser, tampouco é possível
julgar uma semelhante época de revolução a partir de sua própria consciência, senão que, pelo
contrário, se deve explicar esta consciência a partir das contradições da vida material, a partir do
conflito existente entre forças sociais produtivas e relações de produção. Uma formação social jamais
perece enquanto não se hajam desenvolvido todas as forças produtivas, para as quais resulta
amplamente suficiente, e jamais ocupam seu lugar relações de produção novas e superiores antes de
que as condições de existência das mesmas não hajam sido incubadas no seio da própria antiga
sociedade. Daí que a humanidade sempre se propõe só tarefas que pode resolver, pois considerando-o
mais profundamente sempre descobriremos que a própria tarefa só surge quando as considerações
materiais para sua resolução já existem ou, quando menos, se descobrem no processo de devir.”
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Karl Marx, Contribuição à crítica da economia política
Saudações
Por meio desta carta, comunico meu desligamento da Revista Revolução Cultural e do Novo MEPR. Faço-o de maneira consciente, deliberada e fundamentada na teoria revolucionária do proletariado. Aos que lerão isto: Não analisem isto como um afastamento circunstancial, tampouco algo motivado por desavença pessoal, mas sim uma ruptura necessária diante do acúmulo de desvios ideológicos, políticos e organizativos que tornaram insustentável qualquer permanência honesta nesses espaços.
Marx, em suas cartas sobre organização e método, insistia que a fidelidade à causa proletária exige, em certos momentos, a coragem da ruptura. Permanecer em uma estrutura que se afasta progressivamente da realidade concreta da luta de classes não é disciplina revolucionária, é conivência.
O ponto mais escandaloso dessa degeneração é a negação prática (Embora que teoricamente “se apoie” vagamente a ideia de revolução agrária) da luta no campo. Em um país onde o campesinato pobre segue sendo esmagado pelo latifúndio, pelo agronegócio e pela violência paramilitar do Estado, a ausência completa de atuação, solidariedade e
intervenção concreta no campo não é “opção tática”, mas abandono de um terreno decisivo da revolução. Lenin, quando escrevia acerca da revolução russa tardia, advertia que qualquer partido que perdesse o vínculo com as massas camponesas estava condenado a se transformar em seita urbana.
Nesse sentido, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) constitui hoje um exemplo concreto, vivo e combativo da radicalização da luta de classes no campo brasileiro. Pode-se (e deve-se) fazer análises críticas, mas o que não se pode fazer é fingir que ela não existe. É revelador que organizações de outras linhas políticas, como o PCB, o PCBR e até a Revolução Brasileira (ex corrente do PSOL), tenham sido capazes de expressar solidariedade concreta à LCP diante da repressão, enquanto “os renovadores do maoismo brasileiro” se recusam sistematicamente a fazê-lo.
Essa recusa não se explica por divergência estratégica séria, mas por desdém político e infantilismo sectário. O próprio presidente Mao (O qual vocês dizem analisar de forma honesta e não mecanicista), ao tratar da luta entre linhas, advertia que o sectarismo não é sinal de firmeza ideológica, mas de incapacidade de distinguir contradições antagônicas de não antagônicas. Aqui, o sectarismo opera como desculpa para a inação e como álibi para a própria irrelevância prática.
Não por acaso, os companheiros não possuem presença real em nenhum estado onde o movimento camponês tenha força efetiva. Onde há luta viva, não há atuação; onde há risco, não há compromisso; onde há massas, há silêncio. Em compensação, há abundância de textos, debates circulares e performances ideológicas voltadas para dentro de si mesmas.
Fotos de estudantes universitários segurando carabinas de brinquedo existem e são propagadas com grande entusiasmo performático, porém é invisível a atuação real onde o povo camponês se defende contra milícias armadas pelo latifúndio, no mínimo curioso…
Voltamos ao velho Marx que já denunciava esse fenômeno ao criticar os socialistas que transformavam a revolução em “objeto de contemplação intelectual”.
No plano internacional, a situação não é menos grave. A luta do povo palestino é tratada como elemento secundário, quase decorativo, subordinada a uma hierarquização artificial de lutas, sobretudo quando comparada à Guerra Popular na Índia — luta esta que, reafirmo, merece total solidariedade e apoio. O problema não está em apoiar o PCI (Maoista), mas em transformar o internacionalismo proletário em uma hierarquia arbitrária de lutas “mais importantes” e “menos relevantes”. Reduzir a Palestina a um apêndice é negar o caráter mundial do imperialismo e transformar o internacionalismo em retórica seletiva.
A relação com outros movimentos maoistas no país segue a mesma lógica: hostilidade gratuita e arrogância política. O presidente Mao (Voltamos a ele) insistia que a crítica revolucionária deve partir da realidade concreta e servir à unidade sobre bases corretas. O que se vê aqui é o oposto: uma prática marcada por competição, vaidade e autoafirmação identitária.
Entrando no componente ideológico, considero inaceitável a negação do papel do Partido Comunista do Peru e do Presidente Gonzalo na formulação, síntese e difusão do maoismo. O Professor Abimael Guzman e o secretariado geral do PCP, ao sistematizarem a guerra popular prolongada e a militarização do partido, produziram uma síntese baseada na experiência concreta. Apagar isso é mera falsificação histórica, porém, com uma bela roupagem de “embasamento teórico”. Como o próprio Gonzalo insistia, sem linha justa não há prática justa, e sem prática justa toda organização apodrece.
A estrutura interna também revela sinais claros de degeneração. A existência de dirigentes personalistas, com destaque para Igor Mendes (Que apresentava tais desvios mesmo antes do racha), substitui o centralismo democrático por uma lógica informal de liderança carismática, à mercê de um dirigente que apresenta desvios teóricos claros em relação a situação internacional (Sobretudo a guerra popular na Turquia e Peru), sobre filosofia política e sobre uma compreensão real do materialismo histórico e dialético. Quando a autoridade política não se baseia na linha (No caso o maoismo), ou até mesmo deforma a linha para benefício próprio, ela inevitavelmente se apoia em relações pessoais, e isso é terreno fértil para o oportunismo.
A isso se soma uma postura agressiva, simplista e ideologicamente pobre em relação à religiosidade, reduzida pelo próprio Igor Mendes, utilizando Lenin como mero escudo anacrônico, a insultos como “obscurantismo”. Tanto Mao quanto Gonzalo, entre outros chefes históricos do proletariado e experiências como a guerra popular nas Filipinas, ao analisar as crenças populares no seio do povo, deixou claro que a luta ideológica não se faz contra as massas, mas contra as condições que produzem determinadas ideias, e que a contradição em relação a religião só deve ser encarada com firmeza na medida em que se torna uma contradição principal e não-secundária. No meu caso, essa postura assumiu caráter de ataque pessoal, tratado com desprezo e arrogância, inclusive supondo que eu não teria tido contato real com a teoria científica do proletariado e por isso ainda resguardava comigo minha crença pessoal, revelando uma incapacidade profunda de dialogar com as contradições reais das massas.
A negligência com a segurança dos militantes é outro elemento inaceitável. Não se trata de erro pontual, mas de desprezo estrutural por princípios básicos da clandestinidade e da proteção dos quadros. Como uma organização que se propõe a construir um partido de vanguarda consegue normalizar a exposição de militantes e renegar a necessidade da (mesmo que mínima) estrutura e experiência militar ? A história do movimento comunista demonstra que organizações que tratam a segurança como detalhe estão, na prática, preparando derrotas.
Junto a isso, não posso deixar de mencionar a falta de pudor e de respeito aos próprios princípios ideológicos proclamados, evidenciada pela aceitação de desvios que considero inaceitáveis: uso aberto de drogas, normalização de práticas que reforçam a mercantilização do corpo e a produção de conteúdo pornográfico por militantes.
Nos últimos períodos, tornou-se impossível ignorar o deslizamento aberto da organização para o pântano ideológico, marcado pelo flerte cada vez menos disfarçado com concepções pós-modernas e de setores direitistas do MCI, com roupagem de “renovação teórica”. Sob o pretexto de combater o “dogmatismo”, abandona-se o materialismo histórico, substituindo-o por relativismo, subjetivismo e fragmentação das contradições.
Esse apodrecimento ideológico aparece de forma cristalina no programa e no manifesto político do Novo MEPR, documentos que teoricamente fundamentam a organização e explicam a motivação do racha, se pretendem combativos mas que não ousam escrever uma linha sequer contra o atual governo de colaboração de classes dirigido pelo PT em aliança com a direita liberal. Esse silêncio é método. Um manifesto que se recusa a nomear o governo burguês em exercício revela, sem rodeios, sua disposição de conviver com ele.
Para disfarçar essa capitulação vergonhosa, lança-se mão de verborreia pseudo-radical, saturada de termos revolucionários, slogans agressivos e citações arrancadas dos clássicos do marxismo como quem usa adereços. Há aí apenas encenação. A prática é fraca, hesitante e conciliadora; o discurso, histérico e inflamado. É um típico fenômeno dos que gritam mais alto exatamente para esconder o medo da luta real.
A mesma desonestidade se expressa na apropriação descarada de lutas concretas, especialmente no movimento estudantil do Rio de Janeiro, apresentadas como conquistas exclusivas da organização. Trata-se de falsificação consciente, apagamento deliberado da atuação de outros setores e manipulação grosseira da memória coletiva. Esse comportamento não difere, em essência, da prática burguesa de se apropriar do trabalho alheio: muda-se o discurso, mantém-se o método.
Como complemento dessa farsa, constrói-se uma visão arrogante e provinciana do movimento estudantil, como se determinadas experiências locais fossem, por definição, superiores às demais. Essa postura nega a construção nacional da luta, despreza mobilizações em outros estados e reduz o movimento a um palco para autopromoção. O marxismo nunca reconheceu centros naturais de heroísmo; essa hierarquização artificial revela apenas vaidade política e miséria teórica.
Quando se observa com atenção o conjunto dessas formulações, torna-se evidente o esforço sistemático de encobrir a própria fuga da luta de classes concreta. A dureza do confronto real é substituída por textos longos, debates circulares e referências emprestadas, muitas vezes idênticas às utilizadas por setores abertamente direitistas do Movimento Comunista Internacional.
A reivindicação oportunista das jornadas de junho de 2013 segue esse mesmo padrão. Declaram-se herdeiros de um processo que não compreenderam e que jamais estiveram dispostos a levar às últimas consequências.
No terreno estratégico, a confusão é criminosa. Fala-se de Revolução de Nova Democracia de forma vazia, amputada de seu conteúdo essencial: a revolução agrária. Ao mesmo tempo, espalham-se acusações mentirosas sobre supostas orientações de recuo diante da ofensiva reacionária. Essa narrativa só pode ser sustentada por quem está completamente divorciado da realidade ou por quem mente conscientemente. O enfrentamento mais radical no Brasil ocorre no campo, onde o latifúndio, as milícias bolsonaristas e o velho Estado impõem uma situação objetiva de guerra contra o campesinato pobre.
Negar isso só é possível para aqueles que sempre fugiram do campo, acumulando desculpas para não servir às massas onde a repressão é mais brutal e a luta mais exigente. O desprezo pela luta camponesa funciona, aqui, como racionalização da própria covardia. Quem teme a luta dura jamais poderá conduzir uma revolução.
Voltando ao plano internacional, repete-se o mesmo truque barato. A exaltação seletiva da Guerra Popular na Índia serve como cortina de fumaça para esconder a completa falta de disposição em enfrentar as contradições do próprio país. Apoiar uma luta distante e consolidada não exige sacrifício; é confortável. Trafica-se, assim, com o prestígio do Partido Comunista da Índia (Maoista) para mascarar posições que, na prática, se opõem frontalmente à linha defendida por esse partido.
Não existe qualquer respaldo do PCI(M) às formulações da Revista e do N-MEPR. Pelo contrário: seu manifesto e sua prática deixam claro o afastamento da linha da guerra popular prolongada e do cerco das cidades pelo campo.
Nada disso é novidade. A história do movimento comunista está repleta de exemplos semelhantes. Com o tempo, esses mesmos dirigentes que hoje se escondem atrás de palavras duras acabarão buscando espaço nas burocracias institucionais que fingem desprezar. O roteiro é conhecido, o desfecho também.
Diante desse conjunto de fatores, afirmo com toda clareza: meu desligamento é um ato político necessário. Não abandono a revolução; abandono um espaço que deixou de servi-la, ou que nunca realmente se propôs a servi-la. Permanecer seria trair não apenas meus princípios, mas o próprio marxismo enquanto ideologia científica do proletariado.
Que esta carta circule entre militantes honestos, que carregam consigo fervor revolucionário e vontade real pela luta, como registro de uma ruptura consciente, dura e necessária; E como alerta sobre o que ocorre quando a teoria se separa da prática e a revolução se transforma em identidade vazia.
Sem mais, M.
São Paulo – 09/02/2026
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